29 de novembro de 2018
17 de setembro de 2018
Companheiro de viagem
É a nossa necessidade de companheiros que nos leva a criá-los, desde que eles se disponham a serem por nós criados. Este vive à beira de uma circular de Coimbra, daquelas que os automóveis não param de calcorrear durante todo o dia. É uma espécie de sem abrigo. Julgo ser o esquecimento a que felizmente é votado que o faz permanecer vivo, igual a si próprio. Tem uma personalidade, uma força, uma interioridade, que não são habituais nos outdoors seus congéneres. Convida-me a adivinhá-lo, a entendê-lo. Talvez seja isso que me cative.
Já nos tornámos amigos. Todos os dias, logo pela manhã, lá está à minha espera para me contar qualquer coisa diferente, nunca igual àquela de que me falou no dia anterior. Às vezes respondo-lhe, outras não, mas fico sempre satisfeito por ainda o ver lá, receando todos os dias o dia em que tenha sido substituído por um daqueles cartazes publicitários iguais a todos os outros: sérios, monótonos, repetitivos, explícitos, sem interior, sempre iguais e manipulares, a tentarem convencer-nos todos os dias a comprarmos sempre a mesma coisa. Por esses não é possível sentir afecto, muito menos deles sermos amigos.
Julgo ter sido o medo de o perder que me levou a fotografá-lo e a afeição que por ele sinto que me incitou a escrever estas linhas.
2 de setembro de 2018
O lugar do pensamento
A faina pesqueira já tinha terminado há umas boas horas. À sombra, na esplanada de um café de poucas pretensões, os seus camaradas de embarcação entretinham-se a beber cerveja enquanto trocavam algumas verdades sobre as mulheres. «Elas estão-se todas a lixar para nós, os grelos são todos iguais, o importante é um gajo ter um» — afirmava um deles, visivelmente aquele que ostentava um maior pendor filosófico. Algum tempo antes, tomando a direcção do horizonte, já Filipe tinha saído do café com duas cervejas na mão. Na solidão que a companhia dos pensamentos permite, saboreava-as sentado no muro que divide os dois mundos de que o seu mundo é feito. Olhando-o, percebemos que aquele "lugar" é o do próprio pensamento: longe dos lugares-comuns, numa zona de fronteira, com o infinito por horizonte.
16 de maio de 2018
São as ovelhas que pastam os pastores
Não seria possível aos pastores viverem sem ovelhas, pois não teriam como justificar a si próprios a sua secreta necessidade de se evadirem do mundo durante todo o dia, todos os dias. Sem que nem uns nem outros se dêem conta, na verdade são as ovelhas que levam os pastores enquanto pastam.
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