A faina pesqueira já tinha terminado há umas boas horas. À sombra, na esplanada de um café de poucas pretensões, os seus camaradas de embarcação entretinham-se a beber cerveja enquanto trocavam algumas verdades sobre as mulheres. «Elas estão-se todas a lixar para nós, os grelos são todos iguais, o importante é um gajo ter um» — afirmava um deles, visivelmente aquele que ostentava um maior pendor filosófico. Algum tempo antes, tomando a direcção do horizonte, já Filipe tinha saído do café com duas cervejas na mão. Na solidão que a companhia dos pensamentos permite, saboreava-as sentado no muro que divide os dois mundos de que o seu mundo é feito. Olhando-o, percebemos que aquele "lugar" é o do próprio pensamento: longe dos lugares-comuns, numa zona de fronteira, com o infinito por horizonte.

