É a nossa necessidade de companheiros que nos leva a criá-los, desde que eles se disponham a serem por nós criados. Este vive à beira de uma circular de Coimbra, daquelas que os automóveis não param de calcorrear durante todo o dia. É uma espécie de sem abrigo. Julgo ser o esquecimento a que felizmente é votado que o faz permanecer vivo, igual a si próprio. Tem uma personalidade, uma força, uma interioridade, que não são habituais nos outdoors seus congéneres. Convida-me a adivinhá-lo, a entendê-lo. Talvez seja isso que me cative.
Já nos tornámos amigos. Todos os dias, logo pela manhã, lá está à minha espera para me contar qualquer coisa diferente, nunca igual àquela de que me falou no dia anterior. Às vezes respondo-lhe, outras não, mas fico sempre satisfeito por ainda o ver lá, receando todos os dias o dia em que tenha sido substituído por um daqueles cartazes publicitários iguais a todos os outros: sérios, monótonos, repetitivos, explícitos, sem interior, sempre iguais e manipulares, a tentarem convencer-nos todos os dias a comprarmos sempre a mesma coisa. Por esses não é possível sentir afecto, muito menos deles sermos amigos.
Julgo ter sido o medo de o perder que me levou a fotografá-lo e a afeição que por ele sinto que me incitou a escrever estas linhas.


