Passados os afazeres natalícios, o que mais gosto no Natal é de não fazer nada. Não fazer nada e empanturrar-me. E tudo isto — que é tão pouco, mas é tanto — na companhia de quem, comigo, não faz nada e se empanturra, com aquele prazer tão especial, que só o Natal nos traz, de juntos não fazermos nada e nos empanturrarmos.
No tempo em que o Natal era ainda mais Natal, terminado o repasto, debaixo de um sol breve de Dezembro, junto ao poço, comíamos as tangerinas que apanhávamos da árvore. Limpávamos à camisola as gotas de orvalho que em cima de cada uma permaneciam e cravávamos-lhe o polegar na casca, que depois de tirada devolvíamos à terra, atirando-a por cima do ombro. Combinávamos então uma caminhada para "assentar" o almoço e, assim, ganharmos espaço para o lanche que aí vinha. Logo que o sol se resguardava por detrás do frio que regressava, voltávamos à mesa e aos filmes natalícios, todos os anos os mesmos, tal como o bacalhau da véspera e o peru do almoço. Os rituais são assim, sempre iguais, sempre renovados.
Eram — e ainda hoje são — dias em que o tempo pára, que continuam no dia seguinte, não deixando de ser sempre o mesmo dia. A comida e a mesa são apenas pretextos para o eterno retorno àquele tempo fora do tempo em que voltamos a estar juntos — uns com os outros, com a nossa história, com aqueles que já não estando permanecem presentes... Não é possível passar o Natal sozinho!