28 de fevereiro de 2014

Profana-Sagrada Família




Tal como em todos os outros templos que sucumbiram ao turismo e à mediatização, há algo de profano na Sagrada Família de Gaudí. Poderá ser da abundância de quiosques de "recuerdos" nas redondezas; da competição pela conquista dos céus entre os pináculos e os omnipresentes guindastes; de ter permanecido desde sempre como um monumento inacabado; dos turbilhões de turistas que a invadem, como aquele que compôs estas imagens e que, nem unicórnios, se relacionam com o sagrado disparando sobre ele com a câmara que lhes prolonga o olho e fixa o olhar, mas os impede de ver, escutar, cheirar, sentir.
O sagrado vive de costas voltadas para o mundano e para o conflito, encerra em si a ideia de completude e, como o sol do meio dia, não se deixa olhar de frente.





20 de fevereiro de 2014

«A culpa é minha e eu ponho-a em quem eu quiser»




A frase é brilhante. É do insuspeito Homer J. Simpson, patriarca da família Simpson. Confronta-nos com a ancestral tradição humana de expiar culpas por procuração, certamente bem mais remota que o bíblico ritual do bode expiatório.
A foto é igualmente brilhante. É de Henri Cartier-Bresson e foi tirada em Sevilha, em 1933. Confronta-nos com uma outra tradição, certamente tão antiga quanto o próprio Homem: a de negar insuficiências e fragilidades próprias através da exacerbação e do repúdio das dos outros, assim tornadas alheias.
Há quem fale do bullying como uma realidade recente, uma invenção feita em alguma escola nos arredores de Lisboa. Antes fosse!


5 de fevereiro de 2014

Obra póstuma de Miró




Na Fundació Joan Miró é fácil deixarmo-nos tocar pela criatividade, pela relação infantil com a realidade, pela alegria, pela irreverência deste desempoeirador de mentes. Já não seria suposto que o espaço envolvente se deixasse tocar com a mesma facilidade. Mas ali, entre as obras expostas, até as formas caprichosas que os vidros das janelas escolhem quando se partem parecem ter sido inspiradas pelo mestre. Em nenhum outro lugar os vidros se partem assim.


1 de fevereiro de 2014

Deus abençoe esta casa




Esta fotografia é de Rui Palha, tão humanista quanto ele. Vale a pena ler a história desta imagem, contada em http://leicaliker.com/2013/08/17/18-rui-palha-lisbon-portugal-street-photographer/. À laia de conclusão de uma outra entrevista (http://www.fotografiaderua.com/artigos/entrevista-rui-palha.html), este notável fotógrafo da vida humana-urbana dá as seguintes recomendações a potenciais fotógrafos de rua:
  • Goste das pessoas.
  • Respeite as pessoas.
  • Tenha sempre a capacidade de ouvir as pessoas, elas são verdadeiras lições de vida.
  • Tente entender as pessoas, os seus pensamentos, movimentos, sentimentos, alma.
  • Seja destemido e corajoso.
  • Tente estar o mais próximo possível das pessoas que deseja fotografar. Desta forma, vai conhecer e sentir a sua alma e vice-versa.
Mais do que um conjunto de recomendações para fotógrafos, poderia ser uma listagem de bons princípios para todos os que se relacionam ou trabalham com pessoas. Seria necessário apenas substituir o verbo fotografar por aquele que mais se adequasse à circunstância. Ficaria bem afixada na parede de um consultório, de uma escola, de uma repartição pública, de uma enfermaria hospitalar, de um gabinete ministerial ou do hall de entrada de uma qualquer casa de família, pendurada no prego onde ainda não há muito tempo costumavam suspender-se os obrigatórios dizeres "Deus abençoe esta casa".
Seguras pelo mesmo prego, antes e depois, talvez estas sejam duas maneiras distintas de dizer a mesma coisa.