28 de março de 2014
Antídoto
Algumas mensagens deste blog, pela sua natureza, podem provocar o agravamento de estados depressivos insipientes. Para contrariar este efeito, disponibiliza-se uma terapêutica de tripla acção através de três vídeos com comprovados efeitos anti-depressivos, que recorrem à utilização de princípios activos complementares ('o que aquece por dentro', 'Acredita!', 'Deixa-te de merdas e faz-te à vida!'). Em caso de persistência ou agravamento dos sintomas, interrompa imediatamente o seu visionamento e consulte o seu médico ou farmacêutico.
23 de março de 2014
Aniversário
Poderia esta ser uma
janela da casa de que nos fala Fernando Pessoa, uma casa antiga de
família, que mal terá sobrevivido a si própria, hoje fria,
possivelmente já vendida. Podemos tentar imaginar, por detrás das teias, o que dela resta
ainda impregnado pelo cheiro dos momentos de felicidade, de
desespero, de conforto e de solidão daqueles que noutros tempos a
habitaram ou pelas alegrias das crianças que ali terão festejado o
dia dos seus anos, hoje possivelmente tão sobreviventes a si-mesmas
quanto a própria casa.
«No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…A que distância!…
(Nem o acho…)
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…»
Álvaro de Campos
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…Álvaro de Campos
19 de março de 2014
Pai
Há quem diga que "olhos que não vêem, coração que não sente". Como todos os veredictos ditados pelos adágios populares, às vezes até é verdade. Desta vez não. A foto é de Jean-Mark Bouju, de 2003 e na altura correu mundo por ter vencido o world press photo. Retrata um homem iraquiano num centro de detenção de prisioneiros de guerra do exército americano, a confortar o seu filho de quatro anos, não só devido ao calor, mas por ter ficado apavorado ao ver o pai ser encapuzado. Deixa-nos a pensar nas muitas coisas que definem o que é ser pai. Faz-nos recordar o filme "A vida é bela", em que Roberto Benigni, fazendo de pai, se desdobrava em habilidades para tornar a vida suportável para o filho, nas circunstâncias de horror em que ambos se encontravam.
Sobre o assunto, deixo um texto que, em parte, já tinha visto a luz do dia por outras paragens:
Sobre o assunto, deixo um texto que, em parte, já tinha visto a luz do dia por outras paragens:
Um dia o meu filho fez-me aquilo que todos os pais temem que os filhos façam — embora, no fundo, o desejem: pediu-me a lua. Desdobrei-me então em argumentos para o convencer de que estava lá muito longe e que eu não lhe chegava. Mas ele insistia: queria aquela bola! Confesso que me deixou embaraçado e confrontado com uma infinidade de desafios: aceitar a legitimidade do seu desejo; aceitar a minha impotência perante tamanha exigência; ajudá-lo a aceitar a desolação de não ver o seu desejo realizado e a decepção com um pai que é incapaz de realizar uma tarefa tão simples como alcançar uma bola que está já ali; fazer isto de modo a que o seu desejo de alcançar a lua não esmorecesse, mas que eventualmente ganhasse outros contornos e outras tantas formas de se concretizar; reconhecer que ambas as bolas são reais: aquela que todos reconhecemos como sendo a lua e aquela que ele ali colocou e que servia para satisfazer a sua vontade de naquele momento marcar uns golos; (re)aprender com ele — e deste modo ensinar-lhe — que aquilo que vimos está mais no olhar de quem vê do que nas coisas que são vistas. Hoje penso que ele por fim condescendeu por me ver tão atrapalhado. Na altura, convenci-me de que estava a tentar ajudá-lo a relacionar-se com a vida de forma criativa. Para me auto-consolar, claro está.
Mais tarde, já não me bastava responder-lhe aos desejos durante o dia. Passei a ter que cuidar também dos seus sonhos durante a noite, como quem lhe arruma o quarto. Vi-me então transformado num verdadeiro domador de fantasmas e pesadelos — daqueles que aparecem a quem se vai aventurando de forma vacilante por caminhos que ainda são desconhecidos.
O período seguinte, revi-o ironicamente retratado na banda desenhada da Mafalda. Resistindo à vontade dos seus pais para que tomasse banho, o Manelinho, investido de toda a sua autoridade, diz-lhes: «Não penso gelar nu nesse maldito banho! Compreenderam bem?». No quadro seguinte, aparece o Manelinho já dentro da banheira, a pensar: «É notável como compreenderam bem».
Eis-nos assim chegados à altura sempre crítica em que, como tão bem compreendeu Winnicott, a aceitação — a cada momento e de forma pessoal — dos desafios e do confronto impostos por um adolescente, com a consistência necessária para lhes sobreviver — sem retaliar, mas também sem desistir —, definem muito do que é ser pai... Se é difícil!!
Nas últimas décadas tem-se vindo a enxertar uma nova fase neste percurso. Já o Outono vai longo e ainda as crias não saíram do ninho. A situação tem algo de contra-natura e a gestão da separação e da autonomia, dos pais e dos filhos, ganha novos contornos.
"Filhos criados, trabalhos redobrados", diz a expressão popular. "Mais uma volta, mais uma viagem" diria o senhor do carrossel... e um novo ciclo se inicia.
Chegado o dia em que, ao contrário de o levar pela minha mão, eu precise de ser levado pela mão dele, ou mesmo quando já nem isso for possível, talvez ainda assim possa continuar a ser pai. É que esta é uma tarefa que se exerce essencialmente no interior dos filhos, tornando-nos parte da sua coluna vertebral e assim continuando, para sempre, a tomar conta deles. Mas em segredo, sem que se apercebam, para não lhes beliscar o amor-próprio.
15 de março de 2014
12 de março de 2014
Linguagens
«Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade»
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade»
Alberto Caeiro
5 de março de 2014
Estamos vivos
Papéis com uma fotografia tipo passe como esta e uma cruz impressa a negro, em formato A4 ou A5, afixados em locais de passagem, a anunciar o falecimento recente de alguém, apesar de comuns, causam impacto, perplexidade e dor em quem conhecia o falecido e são ignorados por quem o não conhecia. Em qualquer dos casos são notícia. Num mesmo lugar público, alguém noticiar que continua vivo e congratular-se por isso causa igualmente perplexidade, não só pelo insólito, mas também por se tratar de uma não-notícia. Como se a morte fosse mais merecedora de registo que a vida. Como se fosse suposto acordarmos todos os dias, para sempre. Os papéis com a cruz impressa estão lá mais para nos lembrarem de que estamos enganados a este respeito do que para nos darem notícias. Nós é que teimamos em não perceber.
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