19 de março de 2014

Pai




Há quem diga que "olhos que não vêem, coração que não sente". Como todos os veredictos ditados pelos adágios populares, às vezes até é verdade. Desta vez não. A foto é de Jean-Mark Bouju, de 2003 e na altura correu mundo por ter vencido o world press photo. Retrata um homem iraquiano num centro de detenção de prisioneiros de guerra do exército americano, a confortar o seu filho de quatro anos, não só devido ao calor, mas por ter ficado apavorado ao ver o pai ser encapuzado. Deixa-nos a pensar nas muitas coisas que definem o que é ser pai. Faz-nos recordar o filme "A vida é bela", em que Roberto Benigni, fazendo de pai, se desdobrava em habilidades para tornar a vida suportável para o filho, nas circunstâncias de horror em que ambos se encontravam.
Sobre o assunto, deixo um texto que, em parte, já tinha visto a luz do dia  por outras paragens:

Um dia o meu filho fez-me aquilo que todos os pais temem que os filhos façam — embora, no fundo, o desejem: pediu-me a lua. Desdobrei-me então em argumentos para o convencer de que estava lá muito longe e que eu não lhe chegava. Mas ele insistia: queria aquela bola! Confesso que me deixou embaraçado e confrontado com uma infinidade de desafios: aceitar a legitimidade do seu desejo; aceitar a minha impotência perante tamanha exigência; ajudá-lo a aceitar a desolação de não ver o seu desejo realizado e a decepção com um pai que é incapaz de realizar uma tarefa tão simples como alcançar uma bola que está já ali; fazer isto de modo a que o seu desejo de alcançar a lua não esmorecesse, mas que eventualmente ganhasse outros contornos e outras tantas formas de se concretizar; reconhecer que ambas as bolas são reais: aquela que todos reconhecemos como sendo a lua e aquela que ele ali colocou e que servia para satisfazer a sua vontade de naquele momento marcar uns golos; (re)aprender com ele — e deste modo ensinar-lhe — que aquilo que vimos está mais no olhar de quem vê do que nas coisas que são vistas. Hoje penso que ele por fim condescendeu por me ver tão atrapalhado. Na altura, convenci-me de que estava a tentar ajudá-lo a relacionar-se com a vida de forma criativa. Para me auto-consolar, claro está.
Mais tarde, já não me bastava responder-lhe aos desejos durante o dia. Passei a ter que cuidar também dos seus sonhos durante a noite, como quem lhe arruma o quarto. Vi-me então transformado num verdadeiro domador de fantasmas e pesadelos — daqueles que aparecem a quem se vai aventurando de forma vacilante por caminhos que ainda são desconhecidos.
O período seguinte, revi-o ironicamente retratado na banda desenhada da Mafalda. Resistindo à vontade dos seus pais para que tomasse banho, o Manelinho, investido de toda a sua autoridade, diz-lhes: «Não penso gelar nu nesse maldito banho! Compreenderam bem?». No quadro seguinte, aparece o Manelinho já dentro da banheira, a pensar: «É notável como compreenderam bem».
Eis-nos assim chegados à altura sempre crítica em que, como tão bem compreendeu Winnicott, a aceitação — a cada momento e de forma pessoal — dos desafios e do confronto impostos por um adolescente, com a consistência necessária para lhes sobreviver — sem retaliar, mas também sem desistir , definem muito do que é ser pai... Se é difícil!!
Nas últimas décadas tem-se vindo a enxertar uma nova fase neste percurso. Já o Outono vai longo e ainda as crias não saíram do ninho. A situação tem algo de contra-natura e a gestão da separação e da autonomia, dos pais e dos filhos, ganha novos contornos.
"Filhos criados, trabalhos redobrados", diz a expressão popular. "Mais uma volta, mais uma viagem" diria o senhor do carrossel... e um novo ciclo se inicia.
Chegado o dia em que, ao contrário de o levar pela minha mão, eu precise de ser levado pela mão dele, ou mesmo quando já nem isso for possível, talvez ainda assim possa continuar a ser pai. É que esta é uma tarefa que se exerce essencialmente no interior dos filhos, tornando-nos parte da sua coluna vertebral e assim continuando, para sempre, a tomar conta deles. Mas em segredo, sem que se apercebam, para não lhes beliscar o amor-próprio.