21 de junho de 2014

Retrato de família


foto: "Foto Cabecinha", Setúbal


As crianças desenham a sua família de mil maneiras. Para além de construírem diferentes cenários familiares, estes desenhos parecem ser verdadeiras encenações em que elas inventam várias famílias e experimentam outras tantas maneiras de nelas e com elas viverem. Colocam no desenho só quem querem que lá esteja e a fazerem o que elas querem que eles façam, realizando assim os seu desejo, ou então desenham quem receiam que lá possa estar, para os controlarem melhor. Posicionam-se a si próprias, em relação aos restantes, na posição em que se vêem na sua família, outras vezes naquela em que gostavam de estar, outras ainda naquela em que mais temem vir a ficar, fazendo neste caso desenhos que mais parecem rituais de exorcização dos seus medos. Quando um desses desenhos materializa de forma particularmente conseguida algum dos mitos mais inquietantes daquele que o desenhou, fica condenado a permanecer colado na parede por mais tempo do que seria de prever. Por vezes não é fácil perceber porquê. Nessa altura intervêm os pais:
— Quando fizeste esse desenho ainda não desenhavas as pessoas tão bem como agora.
— Mas eu gosto delas assim.
— Porque é que em vez desse não pões na antes aquele, que é mais bonito, que desenhaste ontem?
— Porque não! Tem que ser este!
E lá permanece pendurado no mesmo local — da parede o do desenhador. E lá continua aquela criança todos os dias a olhar para ele, pois aquele desenho, mais do que a tradução que o lápis conseguiu fazer do que se passa à sua volta, é um sítio em que ela se vê e revê qualquer coisa que sabe ter a ver consigo, substituindo com vantagem os espelhos na parede do quarto. Quando a tal "coisa que sabe ter a ver consigo" já não for sentida de forma tão inquietante, pode então substituir aquele por outro desenho que na altura se imponha.
A maior parte dos adultos, pelo contrário, parece ter perdido o hábito de desenhar, tanto a família como tudo o resto. No entanto, ela não deixou de ser importante, eles não deixaram de ter medos ou anseios, nem deixaram de ter a necessidade de pendurar nas paredes partes de si e olhá-las de forma repetida, para que vão conseguindo compreendê-las, até que com elas se reconciliem. Talvez seja para substituírem aqueles desenhos, da altura em que estes adultos eram crianças, que servem os retratos de família. Também eles podem ser desenhados e encenados de mil maneiras, ter as mais diversas combinações de personagens e ficar, que nem páginas remotas da vida desses adultos-crianças, pendurados na parede durante o tempo necessário para que neles se revejam. Uns mais triviais, outros especiais...
Quando uma das modelos da fotografia que está por cima destas linhas, que tinha povoado de infância a nossa infância, nos surpreendeu com o seu desaparecimento, mais do que triste, vi-me invadido por um estranho sentimento de culpa: como poderia agora retribuir o que me havia dado? Já não podia. E viver com a consciência dessa impossibilidade? Nos dias seguintes, estas perguntas foram alimentando o lume em que se foi cozinhando o esboço de uma convicção: o que não tem preço não é para ser pago, nem o que é feito por generosidade fica à espera de retribuição. É mais como nas corridas de estafetas, em que nunca voltamos a dar o testemunho àquele de quem o recebemos, nem sequer ele espera isso de nós. Mas se não o dermos a quem vem a seguir traímos aquele que a nós o confiou. Na altura, esta resposta, se não acertada, pareceu-me pelo menos suficientemente apaziguadora para que durante os dias que se seguiram eu pudesse deixar de olhar repetidamente aquele retrato.



18 de junho de 2014

À la minute




«Tive sempre tanto medo dos fotógrafos: ordenam-nos que fiquemos quietos e principiam a examinar-nos, a sondar-nos, a aproximar-se, a afastar-se, semiescondidos naquela horrível órbita mecânica e míope que pestaneja de tempos a tempos a sua pálpebra circular, pedem-nos que sejamos naturais enquanto nos espiam só aparelho e mãos (um segundo aparelho, pendurado ao pescoço, fita-nos a baloiçar por alturas da barriga) e nisto um estalido devora-nos, a tal órbita mecânica engole-nos de súbito, passamos, como os mortos, para um quadrado de papel onde não somos nós continuando a ser nós, onde nos tornamos uma cara sem tempo ou um sorriso que não pertence a ninguém
(eu não sorrio assim)
e me esconde e me enfeita como um bigode postiço, impossível ser natural se deixei de existir congelado neste acesso, nesta expressão, nesta atitude que nunca foram minhas, nenhuma pessoa é assim, nenhum vivo é assim, estas feições tão sérias sobre as minhas feições a fingirem-se alegres, este homem mais velho do que eu
(sempre mais velho do que eu)
[…]
- Não se mexa agora, está óptimo
e embora não me mexa diminuo por dentro dado que o fotógrafo
- Tente descontrair-se
dado que o fotógrafo
- Não pense em mim, faça de conta que não estou
quer dizer
- Deixe que o mate
pestaneja a pálpebra circular e o mate, me aproxime, me afaste, gire à sua volta e o mate, o devore, o engula, o tome numa cara sem tempo ou num sorriso que não pertence a ninguém, qualquer dia um senhor numa cómoda em trânsito para a arca do sótão e o esquecimento final no meio de vestidos antigos, caixas de chapéus, cadeiras que o empalhador não consertaria nunca, e depois da arca do sótão a venda a peso a sujeitos esquisitos que compram lixo e pó e os vendem a sujeitos ainda mais, blindados contra as alegrias, que adoram lixo e pó, eu bisavô de bisnetos falsos num antiquário qualquer, não me mande ficar quieto, não principie a espiar-me, por favor não me encoraje
- Perfeito, perfeito
não me rode o corpo para a esquerda e o nariz para a direita, não me sugira que acenda um cigarro ou poise o queixo na palma, não estenda esse dedinho de mágico de feira
- Concentre-se no meu dedo
ao concentrar-me no seu dedo o estalido da pálpebra e depois do estalido só o banco onde estive, só a janela por trás, só os prédios sem mim, talvez o cigarro que me sugeriu que acendesse a apagar-se no chão à medida que um sorriso semelhante a um bigode postiço se evapora lentamente com o último sol.»

António Lobo Antunes
(texto para o livro "Olhares" de Eduardo Gageiro)



11 de junho de 2014

Há pessoas assim (XII)




O homo churrascus posiciona-se taxonomicamente entre o girassol e o lagarto do deserto. Distribui-se ao longo de toda a costa portuguesa, sendo mais abundante durante os meses mais quentes do ano. É comum ser avistado várias vezes ao longo do dia a espalhar com satisfação um líquido viscoso por todo o corpo, que lhe dá um aspecto peganhento e gorduroso. Mantém-se num estado vegetativo durante os dias de sol, em que só se movimenta para inverter a posição do corpo, mostrando-se mais activo durante a noite, altura em que sai para ostentar perante outros mamíferos da mesma espécie a cor adquirida durante o dia. Os estudiosos que se dedicam a observar e a registar pacientemente os hábitos e as características físicas desta espécie designam-se por mirones. Podem ser avistados por detrás dos arbustos que bordejam as arribas junto às praias oceânicas e identificam-se facilmente pela presença de uma motorizada estacionada na área circundante, mas não demasiado próxima, pelo olhar desconfiado que lançam sobre quem passa por perto e por terem as mãos normalmente ocupadas a agarrar os binóculos ou alguma outra parte do corpo.



9 de junho de 2014

Há pessoas assim (XI)






Uma manhã fiquei a observar os bandos de aves que cruzavam o céu. O seu voo parecia uma dança, elegante, ágil, sincronizada. Apercebi-me então de uma que destoava de todas as outras. Parecia mais mal acabada. Tinha formas um pouco toscas, aquadradadas, pouco elegantes, uma aerodinâmica duvidosa e fazia um ruído forte e irritante. O seu voar era menos ágil que o das companheiras, deslocando-se de forma robotizada, seguindo sempre na mesma direcção, sem inflexões, nem movimentos sinuosos. Seria de uma espécie menos evoluída ou poderia ter sofrido alguma mutação genética  pensei. Talvez se sentisse envergonhada ao passar entre as restantes. E se, apesar do que a aparência sugere, acontecesse, como tantas vezes já vi, justamente o inverso?  questionei-me. Se, vá-se lá saber porquê, aquela estranha ave  ou quem a tivesse feito  afinal se sentisse arrogantemente superior às outras? Mas logo reconsiderei:  Isso não seria possível! Só se fosse por inveja.



7 de junho de 2014

Há pessoas assim (X)


Há pessoas que comunicam assim…


Outras assim…



E algumas fazem-no com tal habilidade que acreditamos que não as termos entendido só pode ter sido falha nossa.



4 de junho de 2014

Há pessoas assim (IX)




Quem nunca se sentiu assim? Alinhados, contrariados, resignados, de vidas rotinadas, monótonas, repetitivas, sem sobressaltos, assombros ou pensamentos auto-reflexivos: camelos!