18 de junho de 2014

À la minute




«Tive sempre tanto medo dos fotógrafos: ordenam-nos que fiquemos quietos e principiam a examinar-nos, a sondar-nos, a aproximar-se, a afastar-se, semiescondidos naquela horrível órbita mecânica e míope que pestaneja de tempos a tempos a sua pálpebra circular, pedem-nos que sejamos naturais enquanto nos espiam só aparelho e mãos (um segundo aparelho, pendurado ao pescoço, fita-nos a baloiçar por alturas da barriga) e nisto um estalido devora-nos, a tal órbita mecânica engole-nos de súbito, passamos, como os mortos, para um quadrado de papel onde não somos nós continuando a ser nós, onde nos tornamos uma cara sem tempo ou um sorriso que não pertence a ninguém
(eu não sorrio assim)
e me esconde e me enfeita como um bigode postiço, impossível ser natural se deixei de existir congelado neste acesso, nesta expressão, nesta atitude que nunca foram minhas, nenhuma pessoa é assim, nenhum vivo é assim, estas feições tão sérias sobre as minhas feições a fingirem-se alegres, este homem mais velho do que eu
(sempre mais velho do que eu)
[…]
- Não se mexa agora, está óptimo
e embora não me mexa diminuo por dentro dado que o fotógrafo
- Tente descontrair-se
dado que o fotógrafo
- Não pense em mim, faça de conta que não estou
quer dizer
- Deixe que o mate
pestaneja a pálpebra circular e o mate, me aproxime, me afaste, gire à sua volta e o mate, o devore, o engula, o tome numa cara sem tempo ou num sorriso que não pertence a ninguém, qualquer dia um senhor numa cómoda em trânsito para a arca do sótão e o esquecimento final no meio de vestidos antigos, caixas de chapéus, cadeiras que o empalhador não consertaria nunca, e depois da arca do sótão a venda a peso a sujeitos esquisitos que compram lixo e pó e os vendem a sujeitos ainda mais, blindados contra as alegrias, que adoram lixo e pó, eu bisavô de bisnetos falsos num antiquário qualquer, não me mande ficar quieto, não principie a espiar-me, por favor não me encoraje
- Perfeito, perfeito
não me rode o corpo para a esquerda e o nariz para a direita, não me sugira que acenda um cigarro ou poise o queixo na palma, não estenda esse dedinho de mágico de feira
- Concentre-se no meu dedo
ao concentrar-me no seu dedo o estalido da pálpebra e depois do estalido só o banco onde estive, só a janela por trás, só os prédios sem mim, talvez o cigarro que me sugeriu que acendesse a apagar-se no chão à medida que um sorriso semelhante a um bigode postiço se evapora lentamente com o último sol.»

António Lobo Antunes
(texto para o livro "Olhares" de Eduardo Gageiro)