Uma manhã fiquei a observar os bandos de aves que cruzavam o céu. O seu voo parecia uma dança, elegante, ágil, sincronizada. Apercebi-me então de uma que destoava de todas as outras. Parecia mais mal acabada. Tinha formas um pouco toscas, aquadradadas, pouco elegantes, uma aerodinâmica duvidosa e fazia um ruído forte e irritante. O seu voar era menos ágil que o das companheiras, deslocando-se de forma robotizada, seguindo sempre na mesma direcção, sem inflexões, nem movimentos sinuosos. Seria de uma espécie menos evoluída ou poderia ter sofrido alguma mutação genética — pensei. Talvez se sentisse envergonhada ao passar entre as restantes. E se, apesar do que a aparência sugere, acontecesse, como tantas vezes já vi, justamente o inverso? — questionei-me. Se, vá-se lá saber porquê, aquela estranha ave — ou quem a tivesse feito — afinal se sentisse arrogantemente superior às outras? Mas logo reconsiderei: — Isso não seria possível! Só se fosse por inveja.


