Não seria possível aos pastores viverem sem ovelhas, pois não teriam como justificar a si próprios a sua secreta necessidade de se evadirem do mundo durante todo o dia, todos os dias. Sem que nem uns nem outros se dêem conta, na verdade são as ovelhas que levam os pastores enquanto pastam.
16 de maio de 2018
23 de dezembro de 2017
O ciclo do sol
De madrugada o navio atraca. O sol, que lá dormira durante a noite, deixa-o para ir brincar ao apaga-estrelas. Depois sobe, céu acima, para de lá avistar melhor o mundo. No final da tarde o navio sairá do porto em direcção ao mar alto, onde recolherá o sol já cansado da sua jornada, junto ao horizonte, para o trazer de volta na madrugada seguinte.
15 de abril de 2017
Viagem
Uma viagem é o diálogo entre nós, as sombras de nós que nela deixamos e as sombras que dela nas nossas guardamos
Facing life
«And right now I'm afraid, I'm afraid of walking away again, I'm afraid of what I might find, but I'm even more afraid of not facing this fear.»
Wim Wenders, "Paris, Texas"
1 de abril de 2017
Dança
Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com o seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar.
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz
Chico Buarque de Hollanda / Vinicius de Moraes
19 de março de 2017
Quatro reflexões fotográficas sobre a liberdade
(foto: gaivota sobrevoando a escultura de homenagem a Nelson Mandela, Figueira da Foz)
No início era… não sei. Mas no final será a liberdade! Ou, em vez dela, a mágoa de não a ter conquistado, de não ter conseguido construí-la durante uma vida.
(foto: estabelecimento prisional de Lisboa)
Os muros e o arame farpado limitam o que em nós anda, não o que em nós voa.
As grades, as pontes e também o olhar que alcança porque deseja, são condição daquela possibilidade de nos superarmos a que chamamos liberdade.
É no espaço interno que da luz, filtrada pelas grades, se forma a imagem.
17 de março de 2017
Notas de uma visita ao Hospital Júlio de Matos (CHPL)
Ambos partilhamos o desespero de um caminho que irremediavelmente nos desencontra.
1 de janeiro de 2017
Lugar para a eternidade
Cemitério da Serra da Boa Viagem, Figueira da Foz
Quando um dia me finar
Que belo sítio para ficar
A fazer amor com as estrelas
Embalado pelo som do mar
16 de outubro de 2016
... poétiquement
foto: autor desconhecido
"Vivre en prose n'est que survivre. Vivre c'est vivre poétiquement"
Edgar Morin
29 de maio de 2016
O ciclo da lua
Chegada a madrugada, vem o camião porta-luas e leva-a, trazendo-a de volta no início da próxima noite.
1 de abril de 2016
26 de janeiro de 2016
O centro do mundo
Dão-se, de mãos dadas
A si, ao outro, ao mundo
Que está ali todo, imenso
Onde a terra, o mar e o céu se encontram
Também eles assim se dão
Cada um como sabe
Em caminhos, ondas, ventos, mãos
Que vêm ao encontro e encontram
E desafiam
Fazem o encontro e a vida
Viva
11 de outubro de 2015
Como podem, dentro de si, uma música conter tantas músicas, um lápis conter tantos desenhos, uma pessoa conter tantas pessoas…?
Quino
«Cada realidade contém muitas outras realidades dentro dela. É como se o mundo estivesse grávido de outros "munditos", de outros mundos muito melhores que este e há que ajudá-los a nascer.»
Eduardo Galeano in "O tempo e o modo", realização: Graça Castanheira
5 de agosto de 2015
Hardcore
Saber
é saber saber-te
sabermo-nos unir
unirmo-nos
é conhecermo-nos
sabermos ser
por fim sermos
é sabermos
sabermo-nos
conhecermos
a surda áspide
Ana Hatherly
A observação do outro: a diferença é o que nos une e separa. Quando o eu descobre o outro começa a guerrilha sem fim. O nó que se faz-desfaz. A escolha: o gelo da solidão ou a horrível queimadura da vida.
Ana Hatherly
1 de julho de 2015
velhos-novos
foto: autor desconhecido
Cruzando as suas vidas ao cruzarem-se, numa idade sem idade... ou com todas as idades, abraçam o impossível. Renunciando ao possível ou tornando-o assim possível...
28 de junho de 2015
21 de junho de 2015
Janela
foto: Dora b.
18 de junho de 2015
O "caminho"
O "caminho" faz-se no espaço que medeia e une o dentro e o fora. Não é realizável senão de forma autónoma, mas sozinho não faz sentido.
5 de agosto de 2014
"Coisas" das artes
Correu pelo facebook um convite aos leitores para um encontro com o escritor Pedro Chagas Freitas, no último sábado, com hora marcada e tudo, na Figueira da Foz. Como estou pouco habituado a estas coisas, pensei na minha ignorância que ele viria falar sobre a obra ("Prometo Falhar"), sobre ele, sobre literatura, sobre a vida, o que quer que fosse. Compareci pontualmente. Para meu espanto, tudo o que estava a passar-se era um senhor, ainda jovem, bem parecido, de óculos, a assinar livros e uma fila de algumas dezenas de pessoas, maioritariamente mulheres, a aguardar pacientemente pela sua vez de se sentarem e lhe estenderem o livro para autografar. Fiquei até com pena dele. De repente vieram-me à memória imagens de Paulo Portas em época de campanha eleitoral, nos mercados a distribuir chapéus e bandeiras e a abraçar e beijar peixeiras. São os ossos do ofício de um político. E os escritores, pelos vistos, também os têm.
Sentir-me defraudado ou desapontado com as "coisas" das artes é algo que ciclicamente me acontece. Desta vez foi por me sentir apanhado numa simples operação de marketing quando esperava mais do que isso, talvez apenas por ingenuidade minha — bem que no convite o escritor prometia falhar, mas pensei na altura que o sentido daquelas palavras fosse outro. Outras vezes é por me sentir a assistir a demonstrações públicas de um narcisismo exacerbado, para as quais a paciência já escasseia. Outras ainda, de forma próxima à anterior, é por me dar conta da forma auto-centrada — uma espécie de autismo petulante — como alguns círculos artísticos funcionam.
Recordo um domingo, já há mais de 20 anos, em que apanhei o combóio para Braga para ir visitar uns encontros de fotografia. Sobre eles tinha lido uma notícia de várias páginas na revista do Expresso. Nessa notícia quase se sugeria que por aqueles dias Braga seria a capital do mundo, em virtude da qualidade e da importância daquelas exposições. Fiquei entusiasmado e expectante. Cheguei cedo para não perder pitada e para evitar as aglomerações que nestas coisas começam lá para o meio do dia. Puxei de um papel que trazia no bolso onde tinha apontado o nome de três ou quatro locais onde as exposições aconteceriam e dirigi-me ao único que eu conhecia. Aí a exposição só abria ao público depois do almoço, mas teria de haver por ali alguma indicação sobre as restantes, que começavam mais cedo: Nada! Nem nas vitrinas que davam para a rua, onde se atropelavam cartazes diversos, havia um que fosse sobre aquele evento. Perguntei então a um senhor que ali passava pelos "encontros" e pelos locais onde decorriam. Para meu espanto, ele desconhecia tanto uns como os outros. Ignorante! — pensei. Pouco depois, enquanto tomava um café, fiz a mesma pergunta à senhora da pastelaria, que conferenciou primeiro com os colegas e depois com alguns clientes conhecidos e conhecedores da cidade. Veredicto final da assembleia da pastelaria: — Tem mesmo a certeza de que essa coisa das fotografias é aqui em Braga? É que não ouvimos falar de nada e ninguém sabe onde ficam esses sítios. Fui fazendo a mesma pergunta aqui e ali, sempre com a mesma resposta a perseguir-me. Já desesperado, avisto um polícia. Salvação! Faço-lhe "a" pergunta, que nesta altura já me saía de forma mecânica. Ainda aguardo que ele comunique pelo rádio com os colegas que estão na esquadra, mas no fim levo com "a" resposta. Aquela a que já me habituara. Agradeci-lhe o empenho, voltei à estação dos comboios, comprei o bilhete de regresso e despedi-me, tanto de Braga como dos encontros de fotografia que era suposto terem feito parar o mundo e arredores. Regressei a pensar de onde viria tamanha displicência na divulgação e na informação sobre o evento. Enquanto espectador senti-me não só defraudado, como maltratado e talvez não tenha sido eu o único. Todos sabemos dos problemas da falta de verbas e de apoios, da falta de formação do público e do decorrente desinteresse generalizado por estas "coisas", o que até poderia em parte justificar o desconhecimento daqueles que não souberam dar-me a resposta que eu desejava…, mas isto de fazer dos eventos artísticos (principalmente aqueles para os quais contribuem dinheiros públicos) algo dirigido aos próprios e aos amigos, por várias ordens de razões, não me parece bem.
Recordo um domingo, já há mais de 20 anos, em que apanhei o combóio para Braga para ir visitar uns encontros de fotografia. Sobre eles tinha lido uma notícia de várias páginas na revista do Expresso. Nessa notícia quase se sugeria que por aqueles dias Braga seria a capital do mundo, em virtude da qualidade e da importância daquelas exposições. Fiquei entusiasmado e expectante. Cheguei cedo para não perder pitada e para evitar as aglomerações que nestas coisas começam lá para o meio do dia. Puxei de um papel que trazia no bolso onde tinha apontado o nome de três ou quatro locais onde as exposições aconteceriam e dirigi-me ao único que eu conhecia. Aí a exposição só abria ao público depois do almoço, mas teria de haver por ali alguma indicação sobre as restantes, que começavam mais cedo: Nada! Nem nas vitrinas que davam para a rua, onde se atropelavam cartazes diversos, havia um que fosse sobre aquele evento. Perguntei então a um senhor que ali passava pelos "encontros" e pelos locais onde decorriam. Para meu espanto, ele desconhecia tanto uns como os outros. Ignorante! — pensei. Pouco depois, enquanto tomava um café, fiz a mesma pergunta à senhora da pastelaria, que conferenciou primeiro com os colegas e depois com alguns clientes conhecidos e conhecedores da cidade. Veredicto final da assembleia da pastelaria: — Tem mesmo a certeza de que essa coisa das fotografias é aqui em Braga? É que não ouvimos falar de nada e ninguém sabe onde ficam esses sítios. Fui fazendo a mesma pergunta aqui e ali, sempre com a mesma resposta a perseguir-me. Já desesperado, avisto um polícia. Salvação! Faço-lhe "a" pergunta, que nesta altura já me saía de forma mecânica. Ainda aguardo que ele comunique pelo rádio com os colegas que estão na esquadra, mas no fim levo com "a" resposta. Aquela a que já me habituara. Agradeci-lhe o empenho, voltei à estação dos comboios, comprei o bilhete de regresso e despedi-me, tanto de Braga como dos encontros de fotografia que era suposto terem feito parar o mundo e arredores. Regressei a pensar de onde viria tamanha displicência na divulgação e na informação sobre o evento. Enquanto espectador senti-me não só defraudado, como maltratado e talvez não tenha sido eu o único. Todos sabemos dos problemas da falta de verbas e de apoios, da falta de formação do público e do decorrente desinteresse generalizado por estas "coisas", o que até poderia em parte justificar o desconhecimento daqueles que não souberam dar-me a resposta que eu desejava…, mas isto de fazer dos eventos artísticos (principalmente aqueles para os quais contribuem dinheiros públicos) algo dirigido aos próprios e aos amigos, por várias ordens de razões, não me parece bem.
Se a arte não cumprir a função de janela do e para o mundo, não for um "bem" partilhado e partilhador, se a comunicação e a comunhão não lhe forem inerentes e, em algum ponto ou momento da sua existência, não encontrar na generosidade uma motivação, talvez não passe de um mero exercício de masturbação intelectual — individual ou grupal — ou, em alternativa, se arrisque confundir-se com uma qualquer actividade mercantil.
1 de agosto de 2014
27 de julho de 2014
24 de julho de 2014
20 de julho de 2014
15 de julho de 2014
10 de julho de 2014
Perfil
Nos últimos tempos tenho recebido alguns mails em que os autores, normalmente ligados ao meio académico, à laia de rodapé, fazem referência a uma série de títulos, cargos ou posições profissionais que assumem. Nalguns casos trata-se quase de um currículo resumido. De cada vez que recebo um destes mails, sem que tenha algo para lhes mandar em troca, mais insignificante fico a sentir-me. Para combater esta onda de auto-desvalorização que me tem assolado, decidi também eu criar um desses textos em letra miúda, com o qual a partir de agora passo a terminar todos os meus mails. Vai ser assim:
«Fulano de Tal. Responsável pelo que é e pelo que faz. Às vezes também responsabilizado por coisas que nunca fez e também por aquilo que corre mal e que por isso ninguém quer assumir. Coordenador lá em casa das áreas científicas de Matemática e Estudo do Meio, no âmbito do Projecto de Trabalhos de Casa em vigor durante o ano lectivo. Director Executivo do Departamento de Mecenato Caseiro, tendo a seu cargo o financiamento a fundo perdido de todas as actividades que concernem a práticas desportivas, culturais e saídas nocturnas da canalha. Com Pós-Doutoramento na área de investigação de mentiras adolescenciais, chico-espertices e falcatruas afins.»
Só de ler isto já me sinto outro.
8 de julho de 2014
4 de julho de 2014
Gerações
I - (Des)encontro de gerações
II - (Nova) geração vista por si própria
III - Nova geração vista pela geração anterior
21 de junho de 2014
Retrato de família
As crianças desenham a sua família de mil maneiras. Para além de construírem diferentes cenários familiares, estes desenhos parecem ser verdadeiras encenações em que elas inventam várias famílias e experimentam outras tantas maneiras de nelas e com elas viverem. Colocam no desenho só quem querem que lá esteja e a fazerem o que elas querem que eles façam, realizando assim os seu desejo, ou então desenham quem receiam que lá possa estar, para os controlarem melhor. Posicionam-se a si próprias, em relação aos restantes, na posição em que se vêem na sua família, outras vezes naquela em que gostavam de estar, outras ainda naquela em que mais temem vir a ficar, fazendo neste caso desenhos que mais parecem rituais de exorcização dos seus medos. Quando um desses desenhos materializa de forma particularmente conseguida algum dos mitos mais inquietantes daquele que o desenhou, fica condenado a permanecer colado na parede por mais tempo do que seria de prever. Por vezes não é fácil perceber porquê. Nessa altura intervêm os pais:
— Quando fizeste esse desenho ainda não desenhavas as pessoas tão bem como agora.
— Mas eu gosto delas assim.
— Porque é que em vez desse não pões na antes aquele, que é mais bonito, que desenhaste ontem?
— Porque não! Tem que ser este!
E lá permanece pendurado no mesmo local — da parede o do desenhador. E lá continua aquela criança todos os dias a olhar para ele, pois aquele desenho, mais do que a tradução que o lápis conseguiu fazer do que se passa à sua volta, é um sítio em que ela se vê e revê qualquer coisa que sabe ter a ver consigo, substituindo com vantagem os espelhos na parede do quarto. Quando a tal "coisa que sabe ter a ver consigo" já não for sentida de forma tão inquietante, pode então substituir aquele por outro desenho que na altura se imponha.
A maior parte dos adultos, pelo contrário, parece ter perdido o hábito de desenhar, tanto a família como tudo o resto. No entanto, ela não deixou de ser importante, eles não deixaram de ter medos ou anseios, nem deixaram de ter a necessidade de pendurar nas paredes partes de si e olhá-las de forma repetida, para que vão conseguindo compreendê-las, até que com elas se reconciliem. Talvez seja para substituírem aqueles desenhos, da altura em que estes adultos eram crianças, que servem os retratos de família. Também eles podem ser desenhados e encenados de mil maneiras, ter as mais diversas combinações de personagens e ficar, que nem páginas remotas da vida desses adultos-crianças, pendurados na parede durante o tempo necessário para que neles se revejam. Uns mais triviais, outros especiais...
Quando uma das modelos da fotografia que está por cima destas linhas, que tinha povoado de infância a nossa infância, nos surpreendeu com o seu desaparecimento, mais do que triste, vi-me invadido por um estranho sentimento de culpa: como poderia agora retribuir o que me havia dado? Já não podia. E viver com a consciência dessa impossibilidade? Nos dias seguintes, estas perguntas foram alimentando o lume em que se foi cozinhando o esboço de uma convicção: o que não tem preço não é para ser pago, nem o que é feito por generosidade fica à espera de retribuição. É mais como nas corridas de estafetas, em que nunca voltamos a dar o testemunho àquele de quem o recebemos, nem sequer ele espera isso de nós. Mas se não o dermos a quem vem a seguir traímos aquele que a nós o confiou. Na altura, esta resposta, se não acertada, pareceu-me pelo menos suficientemente apaziguadora para que durante os dias que se seguiram eu pudesse deixar de olhar repetidamente aquele retrato.
Quando uma das modelos da fotografia que está por cima destas linhas, que tinha povoado de infância a nossa infância, nos surpreendeu com o seu desaparecimento, mais do que triste, vi-me invadido por um estranho sentimento de culpa: como poderia agora retribuir o que me havia dado? Já não podia. E viver com a consciência dessa impossibilidade? Nos dias seguintes, estas perguntas foram alimentando o lume em que se foi cozinhando o esboço de uma convicção: o que não tem preço não é para ser pago, nem o que é feito por generosidade fica à espera de retribuição. É mais como nas corridas de estafetas, em que nunca voltamos a dar o testemunho àquele de quem o recebemos, nem sequer ele espera isso de nós. Mas se não o dermos a quem vem a seguir traímos aquele que a nós o confiou. Na altura, esta resposta, se não acertada, pareceu-me pelo menos suficientemente apaziguadora para que durante os dias que se seguiram eu pudesse deixar de olhar repetidamente aquele retrato.
18 de junho de 2014
À la minute
«Tive sempre tanto medo dos fotógrafos: ordenam-nos que fiquemos quietos e principiam a examinar-nos, a sondar-nos, a aproximar-se, a afastar-se, semiescondidos naquela horrível órbita mecânica e míope que pestaneja de tempos a tempos a sua pálpebra circular, pedem-nos que sejamos naturais enquanto nos espiam só aparelho e mãos (um segundo aparelho, pendurado ao pescoço, fita-nos a baloiçar por alturas da barriga) e nisto um estalido devora-nos, a tal órbita mecânica engole-nos de súbito, passamos, como os mortos, para um quadrado de papel onde não somos nós continuando a ser nós, onde nos tornamos uma cara sem tempo ou um sorriso que não pertence a ninguém
(eu não sorrio assim)
e me esconde e me enfeita como um bigode postiço, impossível ser natural se deixei de existir congelado neste acesso, nesta expressão, nesta atitude que nunca foram minhas, nenhuma pessoa é assim, nenhum vivo é assim, estas feições tão sérias sobre as minhas feições a fingirem-se alegres, este homem mais velho do que eu
(sempre mais velho do que eu)
[…]
- Não se mexa agora, está óptimo
e embora não me mexa diminuo por dentro dado que o fotógrafo
- Tente descontrair-se
dado que o fotógrafo
- Não pense em mim, faça de conta que não estou
quer dizer
- Deixe que o mate
pestaneja a pálpebra circular e o mate, me aproxime, me afaste, gire à sua volta e o mate, o devore, o engula, o tome numa cara sem tempo ou num sorriso que não pertence a ninguém, qualquer dia um senhor numa cómoda em trânsito para a arca do sótão e o esquecimento final no meio de vestidos antigos, caixas de chapéus, cadeiras que o empalhador não consertaria nunca, e depois da arca do sótão a venda a peso a sujeitos esquisitos que compram lixo e pó e os vendem a sujeitos ainda mais, blindados contra as alegrias, que adoram lixo e pó, eu bisavô de bisnetos falsos num antiquário qualquer, não me mande ficar quieto, não principie a espiar-me, por favor não me encoraje
- Perfeito, perfeito
não me rode o corpo para a esquerda e o nariz para a direita, não me sugira que acenda um cigarro ou poise o queixo na palma, não estenda esse dedinho de mágico de feira
- Concentre-se no meu dedo
ao concentrar-me no seu dedo o estalido da pálpebra e depois do estalido só o banco onde estive, só a janela por trás, só os prédios sem mim, talvez o cigarro que me sugeriu que acendesse a apagar-se no chão à medida que um sorriso semelhante a um bigode postiço se evapora lentamente com o último sol.»
António Lobo Antunes
(texto para o livro "Olhares" de Eduardo Gageiro)
13 de junho de 2014
11 de junho de 2014
Há pessoas assim (XII)
O homo churrascus posiciona-se taxonomicamente entre o girassol e o lagarto do deserto. Distribui-se ao longo de toda a costa portuguesa, sendo mais abundante durante os meses mais quentes do ano. É comum ser avistado várias vezes ao longo do dia a espalhar com satisfação um líquido viscoso por todo o corpo, que lhe dá um aspecto peganhento e gorduroso. Mantém-se num estado vegetativo durante os dias de sol, em que só se movimenta para inverter a posição do corpo, mostrando-se mais activo durante a noite, altura em que sai para ostentar perante outros mamíferos da mesma espécie a cor adquirida durante o dia. Os estudiosos que se dedicam a observar e a registar pacientemente os hábitos e as características físicas desta espécie designam-se por mirones. Podem ser avistados por detrás dos arbustos que bordejam as arribas junto às praias oceânicas e identificam-se facilmente pela presença de uma motorizada estacionada na área circundante, mas não demasiado próxima, pelo olhar desconfiado que lançam sobre quem passa por perto e por terem as mãos normalmente ocupadas a agarrar os binóculos ou alguma outra parte do corpo.
9 de junho de 2014
Há pessoas assim (XI)
Uma manhã fiquei a observar os bandos de aves que cruzavam o céu. O seu voo parecia uma dança, elegante, ágil, sincronizada. Apercebi-me então de uma que destoava de todas as outras. Parecia mais mal acabada. Tinha formas um pouco toscas, aquadradadas, pouco elegantes, uma aerodinâmica duvidosa e fazia um ruído forte e irritante. O seu voar era menos ágil que o das companheiras, deslocando-se de forma robotizada, seguindo sempre na mesma direcção, sem inflexões, nem movimentos sinuosos. Seria de uma espécie menos evoluída ou poderia ter sofrido alguma mutação genética — pensei. Talvez se sentisse envergonhada ao passar entre as restantes. E se, apesar do que a aparência sugere, acontecesse, como tantas vezes já vi, justamente o inverso? — questionei-me. Se, vá-se lá saber porquê, aquela estranha ave — ou quem a tivesse feito — afinal se sentisse arrogantemente superior às outras? Mas logo reconsiderei: — Isso não seria possível! Só se fosse por inveja.
7 de junho de 2014
Há pessoas assim (X)
Há pessoas que comunicam assim…
Outras assim…
E algumas fazem-no com tal habilidade que acreditamos que não as termos entendido só pode ter sido falha nossa.
4 de junho de 2014
Há pessoas assim (IX)
Quem nunca se sentiu assim? Alinhados, contrariados, resignados, de vidas rotinadas, monótonas, repetitivas, sem sobressaltos, assombros ou pensamentos auto-reflexivos: camelos!
31 de maio de 2014
Há pessoas assim (VIII)
De ferroada sempre pronta, não desperdiça uma oportunidade de pousar as patas nos 'podres' de quantos existam ao seu redor.
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