1 de novembro de 2021
8 de novembro de 2020
Des-equilíbrios
Este homem, ainda jovem, barbado e desgrenhado, por dentro e por fora, vociferava com fantasmas seus com que se cruzava no seu andar errático. Gritava-lhes, como quem está zangado, num francês áspero que parecia procurar um qualquer sentido no vazio, como que a mostrar-nos quão frágil é esse equilíbrio, tecido em filigrana, a que chamamos saúde mental.
7 de novembro de 2020
Mudam-se os tempos...
A primeira destas fotografias, de 1995, um clássico, é de Elliott Erwitt. A segunda, de 2016, um plágio, foi feita por mim. Para qualquer plagiador que se preze, há algo de mágico em chegar mais de 20 anos depois ao mesmo local onde foi feita uma foto histórica, por um fotógrafo histórico e constatar que aquele é literalmente "o mesmo local": as mesmas pinturas, a mesma sala, o mesmo chão, a mesma iluminação e, como se isso não bastasse, também a mesma distribuição por géneros entre os visitantes. É caso para dizer "mudam-se os tempos, mas não as vontades".
17 de julho de 2020
10 de maio de 2020
5 de maio de 2020
20 de abril de 2020
16 de abril de 2020
Metáfora de um outro desencontro
É uma fotografia das traseiras de um pavilhão do antigo hospital Júlio de Matos.
Podíamos colocar uma legenda assim: num hospital psiquiátrico há um caminho pedestre que termina com dois degraus que dão acesso a uma janela gradeada. Ao lado há uma porta, iluminada, mas não é aí que o caminho vai dar.
Também poderíamos descrever a imagem em sentido inverso: Num hospital psiquiátrico há uma sala com duas janelas gradeadas. Se porventura não fossem gradeadas e fossem portas, em vez de janelas, de uma delas seria possível aceder, descendo dois degraus, a um caminho que passa por entre as árvores do jardim.
Podíamos colocar uma legenda assim: num hospital psiquiátrico há um caminho pedestre que termina com dois degraus que dão acesso a uma janela gradeada. Ao lado há uma porta, iluminada, mas não é aí que o caminho vai dar.
Também poderíamos descrever a imagem em sentido inverso: Num hospital psiquiátrico há uma sala com duas janelas gradeadas. Se porventura não fossem gradeadas e fossem portas, em vez de janelas, de uma delas seria possível aceder, descendo dois degraus, a um caminho que passa por entre as árvores do jardim.
19 de outubro de 2019
Mona Lisa
Ao passar por uma loja de móveis, questionei-me: — Ir ao Louvre para quê?
Com um enquadramento tão aleatório e provisório quanto a própria existência — as costas de um frigorífico, um móvel feito só de interiores, um espelho, abat-jours de gosto duvidoso, bocados de camas e sofás — e aquela iluminação por candeeiros do mundo real, consegue-se uma integração entre a arte e a vida que nos faz repensar as duas e que não se encontra em museu nenhum do mundo.
17 de outubro de 2019
Rotundas da vida
Nas rotundas da vida, quando tantos caminhos são possíveis, há por vezes sinais que vêm ajudar-nos a escolher o sentido a seguir. Se um dia alguém se lembrar de colocar no mesmo poste uma seta para a esquerda a dizer "imperiais", lá vão regressar as crises existenciais.
21 de agosto de 2019
Uma curiosa obra do acaso
Em "Venda das Raparigas", uma localidade a meio caminho entre Lisboa e Coimbra, num espaço de não mais de 500 metros, podem contar-se seis sinais de trânsito daqueles em que uma menina é levada pela mão de um adulto. Uma curiosa obra do acaso. Ou talvez não...
15 de agosto de 2019
Taberna Raposo
Por cima da porta da esquerda pode ler-se: «Nesta casa meus senhores / Há encontros curiosos / Há caçadores e mergulhadores / E também muitos mentirosos». É na Taberna Raposo, uma pérola dos tempos em que os estabelecimentos eram ao mesmo tempo comerciais e sociais. Uma taberna tradicional, já com muitas décadas de vida, imaculadamente preservada, como devem haver muito poucas por todo o mundo. A fazer as honras da casa, na sua simpatia, o Sr. Mário Jorge Raposo, orgulhoso dos 40 anos durante os quais, inicialmente acompanhado pelo seu pai, tem mantido esta casa. Ali, bem no meio de Ponta Delgada, ainda hoje fregueses e amigos se confundem. Não se vai lá para consumir, mas para estar, conversar ou até jogar. Beber um copo é apenas um pretexto. Ficamos com saudades de um tempo que já não existe fora de templos como este. Uma parte de nós quer lá ficar.
Chronos
No tempo vão-se incorporando e assim afastando, lentamente, as marcas com que um dia acreditámos conseguir eternizá-lo.
29 de novembro de 2018
17 de setembro de 2018
Companheiro de viagem
É a nossa necessidade de companheiros que nos leva a criá-los, desde que eles se disponham a serem por nós criados. Este vive à beira de uma circular de Coimbra, daquelas que os automóveis não param de calcorrear durante todo o dia. É uma espécie de sem abrigo. Julgo ser o esquecimento a que felizmente é votado que o faz permanecer vivo, igual a si próprio. Tem uma personalidade, uma força, uma interioridade, que não são habituais nos outdoors seus congéneres. Convida-me a adivinhá-lo, a entendê-lo. Talvez seja isso que me cative.
Já nos tornámos amigos. Todos os dias, logo pela manhã, lá está à minha espera para me contar qualquer coisa diferente, nunca igual àquela de que me falou no dia anterior. Às vezes respondo-lhe, outras não, mas fico sempre satisfeito por ainda o ver lá, receando todos os dias o dia em que tenha sido substituído por um daqueles cartazes publicitários iguais a todos os outros: sérios, monótonos, repetitivos, explícitos, sem interior, sempre iguais e manipulares, a tentarem convencer-nos todos os dias a comprarmos sempre a mesma coisa. Por esses não é possível sentir afecto, muito menos deles sermos amigos.
Julgo ter sido o medo de o perder que me levou a fotografá-lo e a afeição que por ele sinto que me incitou a escrever estas linhas.
2 de setembro de 2018
O lugar do pensamento
A faina pesqueira já tinha terminado há umas boas horas. À sombra, na esplanada de um café de poucas pretensões, os seus camaradas de embarcação entretinham-se a beber cerveja enquanto trocavam algumas verdades sobre as mulheres. «Elas estão-se todas a lixar para nós, os grelos são todos iguais, o importante é um gajo ter um» — afirmava um deles, visivelmente aquele que ostentava um maior pendor filosófico. Algum tempo antes, tomando a direcção do horizonte, já Filipe tinha saído do café com duas cervejas na mão. Na solidão que a companhia dos pensamentos permite, saboreava-as sentado no muro que divide os dois mundos de que o seu mundo é feito. Olhando-o, percebemos que aquele "lugar" é o do próprio pensamento: longe dos lugares-comuns, numa zona de fronteira, com o infinito por horizonte.
16 de maio de 2018
São as ovelhas que pastam os pastores
Não seria possível aos pastores viverem sem ovelhas, pois não teriam como justificar a si próprios a sua secreta necessidade de se evadirem do mundo durante todo o dia, todos os dias. Sem que nem uns nem outros se dêem conta, na verdade são as ovelhas que levam os pastores enquanto pastam.
23 de dezembro de 2017
O ciclo do sol
De madrugada o navio atraca. O sol, que lá dormira durante a noite, deixa-o para ir brincar ao apaga-estrelas. Depois sobe, céu acima, para de lá avistar melhor o mundo. No final da tarde o navio sairá do porto em direcção ao mar alto, onde recolherá o sol já cansado da sua jornada, junto ao horizonte, para o trazer de volta na madrugada seguinte.
15 de abril de 2017
Viagem
Uma viagem é o diálogo entre nós, as sombras de nós que nela deixamos e as sombras que dela nas nossas guardamos
Facing life
«And right now I'm afraid, I'm afraid of walking away again, I'm afraid of what I might find, but I'm even more afraid of not facing this fear.»
Wim Wenders, "Paris, Texas"
1 de abril de 2017
Dança
Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com o seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar.
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz
Chico Buarque de Hollanda / Vinicius de Moraes
19 de março de 2017
Quatro reflexões fotográficas sobre a liberdade
(foto: gaivota sobrevoando a escultura de homenagem a Nelson Mandela, Figueira da Foz)
No início era… não sei. Mas no final será a liberdade! Ou, em vez dela, a mágoa de não a ter conquistado, de não ter conseguido construí-la durante uma vida.
(foto: estabelecimento prisional de Lisboa)
Os muros e o arame farpado limitam o que em nós anda, não o que em nós voa.
As grades, as pontes e também o olhar que alcança porque deseja, são condição daquela possibilidade de nos superarmos a que chamamos liberdade.
É no espaço interno que da luz, filtrada pelas grades, se forma a imagem.
17 de março de 2017
Notas de uma visita ao Hospital Júlio de Matos (CHPL)
Ambos partilhamos o desespero de um caminho que irremediavelmente nos desencontra.
1 de janeiro de 2017
Lugar para a eternidade
Cemitério da Serra da Boa Viagem, Figueira da Foz
Quando um dia me finar
Que belo sítio para ficar
A fazer amor com as estrelas
Embalado pelo som do mar
16 de outubro de 2016
... poétiquement
foto: autor desconhecido
"Vivre en prose n'est que survivre. Vivre c'est vivre poétiquement"
Edgar Morin
29 de maio de 2016
O ciclo da lua
Chegada a madrugada, vem o camião porta-luas e leva-a, trazendo-a de volta no início da próxima noite.
1 de abril de 2016
26 de janeiro de 2016
O centro do mundo
Dão-se, de mãos dadas
A si, ao outro, ao mundo
Que está ali todo, imenso
Onde a terra, o mar e o céu se encontram
Também eles assim se dão
Cada um como sabe
Em caminhos, ondas, ventos, mãos
Que vêm ao encontro e encontram
E desafiam
Fazem o encontro e a vida
Viva
11 de outubro de 2015
Como podem, dentro de si, uma música conter tantas músicas, um lápis conter tantos desenhos, uma pessoa conter tantas pessoas…?
Quino
«Cada realidade contém muitas outras realidades dentro dela. É como se o mundo estivesse grávido de outros "munditos", de outros mundos muito melhores que este e há que ajudá-los a nascer.»
Eduardo Galeano in "O tempo e o modo", realização: Graça Castanheira
5 de agosto de 2015
Hardcore
Saber
é saber saber-te
sabermo-nos unir
unirmo-nos
é conhecermo-nos
sabermos ser
por fim sermos
é sabermos
sabermo-nos
conhecermos
a surda áspide
Ana Hatherly
A observação do outro: a diferença é o que nos une e separa. Quando o eu descobre o outro começa a guerrilha sem fim. O nó que se faz-desfaz. A escolha: o gelo da solidão ou a horrível queimadura da vida.
Ana Hatherly
1 de julho de 2015
velhos-novos
foto: autor desconhecido
Cruzando as suas vidas ao cruzarem-se, numa idade sem idade... ou com todas as idades, abraçam o impossível. Renunciando ao possível ou tornando-o assim possível...
28 de junho de 2015
21 de junho de 2015
Janela
foto: Dora b.
18 de junho de 2015
O "caminho"
O "caminho" faz-se no espaço que medeia e une o dentro e o fora. Não é realizável senão de forma autónoma, mas sozinho não faz sentido.
5 de agosto de 2014
"Coisas" das artes
Correu pelo facebook um convite aos leitores para um encontro com o escritor Pedro Chagas Freitas, no último sábado, com hora marcada e tudo, na Figueira da Foz. Como estou pouco habituado a estas coisas, pensei na minha ignorância que ele viria falar sobre a obra ("Prometo Falhar"), sobre ele, sobre literatura, sobre a vida, o que quer que fosse. Compareci pontualmente. Para meu espanto, tudo o que estava a passar-se era um senhor, ainda jovem, bem parecido, de óculos, a assinar livros e uma fila de algumas dezenas de pessoas, maioritariamente mulheres, a aguardar pacientemente pela sua vez de se sentarem e lhe estenderem o livro para autografar. Fiquei até com pena dele. De repente vieram-me à memória imagens de Paulo Portas em época de campanha eleitoral, nos mercados a distribuir chapéus e bandeiras e a abraçar e beijar peixeiras. São os ossos do ofício de um político. E os escritores, pelos vistos, também os têm.
Sentir-me defraudado ou desapontado com as "coisas" das artes é algo que ciclicamente me acontece. Desta vez foi por me sentir apanhado numa simples operação de marketing quando esperava mais do que isso, talvez apenas por ingenuidade minha — bem que no convite o escritor prometia falhar, mas pensei na altura que o sentido daquelas palavras fosse outro. Outras vezes é por me sentir a assistir a demonstrações públicas de um narcisismo exacerbado, para as quais a paciência já escasseia. Outras ainda, de forma próxima à anterior, é por me dar conta da forma auto-centrada — uma espécie de autismo petulante — como alguns círculos artísticos funcionam.
Recordo um domingo, já há mais de 20 anos, em que apanhei o combóio para Braga para ir visitar uns encontros de fotografia. Sobre eles tinha lido uma notícia de várias páginas na revista do Expresso. Nessa notícia quase se sugeria que por aqueles dias Braga seria a capital do mundo, em virtude da qualidade e da importância daquelas exposições. Fiquei entusiasmado e expectante. Cheguei cedo para não perder pitada e para evitar as aglomerações que nestas coisas começam lá para o meio do dia. Puxei de um papel que trazia no bolso onde tinha apontado o nome de três ou quatro locais onde as exposições aconteceriam e dirigi-me ao único que eu conhecia. Aí a exposição só abria ao público depois do almoço, mas teria de haver por ali alguma indicação sobre as restantes, que começavam mais cedo: Nada! Nem nas vitrinas que davam para a rua, onde se atropelavam cartazes diversos, havia um que fosse sobre aquele evento. Perguntei então a um senhor que ali passava pelos "encontros" e pelos locais onde decorriam. Para meu espanto, ele desconhecia tanto uns como os outros. Ignorante! — pensei. Pouco depois, enquanto tomava um café, fiz a mesma pergunta à senhora da pastelaria, que conferenciou primeiro com os colegas e depois com alguns clientes conhecidos e conhecedores da cidade. Veredicto final da assembleia da pastelaria: — Tem mesmo a certeza de que essa coisa das fotografias é aqui em Braga? É que não ouvimos falar de nada e ninguém sabe onde ficam esses sítios. Fui fazendo a mesma pergunta aqui e ali, sempre com a mesma resposta a perseguir-me. Já desesperado, avisto um polícia. Salvação! Faço-lhe "a" pergunta, que nesta altura já me saía de forma mecânica. Ainda aguardo que ele comunique pelo rádio com os colegas que estão na esquadra, mas no fim levo com "a" resposta. Aquela a que já me habituara. Agradeci-lhe o empenho, voltei à estação dos comboios, comprei o bilhete de regresso e despedi-me, tanto de Braga como dos encontros de fotografia que era suposto terem feito parar o mundo e arredores. Regressei a pensar de onde viria tamanha displicência na divulgação e na informação sobre o evento. Enquanto espectador senti-me não só defraudado, como maltratado e talvez não tenha sido eu o único. Todos sabemos dos problemas da falta de verbas e de apoios, da falta de formação do público e do decorrente desinteresse generalizado por estas "coisas", o que até poderia em parte justificar o desconhecimento daqueles que não souberam dar-me a resposta que eu desejava…, mas isto de fazer dos eventos artísticos (principalmente aqueles para os quais contribuem dinheiros públicos) algo dirigido aos próprios e aos amigos, por várias ordens de razões, não me parece bem.
Recordo um domingo, já há mais de 20 anos, em que apanhei o combóio para Braga para ir visitar uns encontros de fotografia. Sobre eles tinha lido uma notícia de várias páginas na revista do Expresso. Nessa notícia quase se sugeria que por aqueles dias Braga seria a capital do mundo, em virtude da qualidade e da importância daquelas exposições. Fiquei entusiasmado e expectante. Cheguei cedo para não perder pitada e para evitar as aglomerações que nestas coisas começam lá para o meio do dia. Puxei de um papel que trazia no bolso onde tinha apontado o nome de três ou quatro locais onde as exposições aconteceriam e dirigi-me ao único que eu conhecia. Aí a exposição só abria ao público depois do almoço, mas teria de haver por ali alguma indicação sobre as restantes, que começavam mais cedo: Nada! Nem nas vitrinas que davam para a rua, onde se atropelavam cartazes diversos, havia um que fosse sobre aquele evento. Perguntei então a um senhor que ali passava pelos "encontros" e pelos locais onde decorriam. Para meu espanto, ele desconhecia tanto uns como os outros. Ignorante! — pensei. Pouco depois, enquanto tomava um café, fiz a mesma pergunta à senhora da pastelaria, que conferenciou primeiro com os colegas e depois com alguns clientes conhecidos e conhecedores da cidade. Veredicto final da assembleia da pastelaria: — Tem mesmo a certeza de que essa coisa das fotografias é aqui em Braga? É que não ouvimos falar de nada e ninguém sabe onde ficam esses sítios. Fui fazendo a mesma pergunta aqui e ali, sempre com a mesma resposta a perseguir-me. Já desesperado, avisto um polícia. Salvação! Faço-lhe "a" pergunta, que nesta altura já me saía de forma mecânica. Ainda aguardo que ele comunique pelo rádio com os colegas que estão na esquadra, mas no fim levo com "a" resposta. Aquela a que já me habituara. Agradeci-lhe o empenho, voltei à estação dos comboios, comprei o bilhete de regresso e despedi-me, tanto de Braga como dos encontros de fotografia que era suposto terem feito parar o mundo e arredores. Regressei a pensar de onde viria tamanha displicência na divulgação e na informação sobre o evento. Enquanto espectador senti-me não só defraudado, como maltratado e talvez não tenha sido eu o único. Todos sabemos dos problemas da falta de verbas e de apoios, da falta de formação do público e do decorrente desinteresse generalizado por estas "coisas", o que até poderia em parte justificar o desconhecimento daqueles que não souberam dar-me a resposta que eu desejava…, mas isto de fazer dos eventos artísticos (principalmente aqueles para os quais contribuem dinheiros públicos) algo dirigido aos próprios e aos amigos, por várias ordens de razões, não me parece bem.
Se a arte não cumprir a função de janela do e para o mundo, não for um "bem" partilhado e partilhador, se a comunicação e a comunhão não lhe forem inerentes e, em algum ponto ou momento da sua existência, não encontrar na generosidade uma motivação, talvez não passe de um mero exercício de masturbação intelectual — individual ou grupal — ou, em alternativa, se arrisque confundir-se com uma qualquer actividade mercantil.
1 de agosto de 2014
27 de julho de 2014
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