26 de dezembro de 2021

Natal profano




Passados os afazeres natalícios, o que mais gosto no Natal é de não fazer nada. Não fazer nada e empanturrar-me. E tudo isto — que é tão pouco, mas é tanto — na companhia de quem, comigo, não faz nada e se empanturra, com aquele prazer tão especial, que só o Natal nos traz, de juntos não fazermos nada e nos empanturrarmos.

No tempo em que o Natal era ainda mais Natal, terminado o repasto, debaixo de um sol breve de Dezembro, junto ao poço, comíamos as tangerinas que apanhávamos da árvore. Limpávamos à camisola as gotas de orvalho que em cima de cada uma permaneciam e cravávamos-lhe o polegar na casca, que depois de tirada devolvíamos à terra, atirando-a por cima do ombro. Combinávamos então uma caminhada para "assentar" o almoço e, assim, ganharmos espaço para o lanche que aí vinha. Logo que o sol se resguardava por detrás do frio que regressava, voltávamos à mesa e aos filmes natalícios, todos os anos os mesmos, tal como o bacalhau da véspera e o peru do almoço. Os rituais são assim, sempre iguais, sempre renovados.

Eram — e ainda hoje são — dias em que o tempo pára, que continuam no dia seguinte, não deixando de ser sempre o mesmo dia. A comida e a mesa são apenas pretextos para o eterno retorno àquele tempo fora do tempo em que voltamos a estar juntos — uns com os outros, com a nossa história, com aqueles que já não estando permanecem presentes... Não é possível passar o Natal sozinho!




8 de novembro de 2020

Des-equilíbrios




Este homem, ainda jovem, barbado e desgrenhado, por dentro e por fora, vociferava com fantasmas seus com que se cruzava no seu andar errático. Gritava-lhes, como quem está zangado, num francês áspero que parecia procurar um qualquer sentido no vazio, como que a mostrar-nos quão frágil é esse equilíbrio, tecido em filigrana, a que chamamos saúde mental.



7 de novembro de 2020

Mudam-se os tempos...

 



A primeira destas fotografias, de 1995, um clássico, é de Elliott Erwitt. A segunda, de 2016, um plágio, foi feita por mim. Para qualquer plagiador que se preze, há algo de mágico em chegar mais de 20 anos depois ao mesmo local onde foi feita uma foto histórica, por um fotógrafo histórico e constatar que aquele é literalmente "o mesmo local": as mesmas pinturas, a mesma sala, o mesmo chão, a mesma iluminação e, como se isso não bastasse, também a mesma distribuição por géneros entre os visitantes. É caso para dizer "mudam-se os tempos, mas não as vontades".



20 de abril de 2020

Caminho




«Cada um tem a sina que tem
Os caminhos são sempre de alguém»

João Monge



16 de abril de 2020

Solidão





Metáfora de um outro desencontro




É uma fotografia das traseiras de um pavilhão do antigo hospital Júlio de Matos.
Podíamos colocar uma legenda assim: num hospital psiquiátrico há um caminho pedestre que termina com dois degraus que dão acesso a uma janela gradeada. Ao lado há uma porta, iluminada, mas não é aí que o caminho vai dar.
Também poderíamos descrever a imagem em sentido inverso: Num hospital psiquiátrico há uma sala com duas janelas gradeadas. Se porventura não fossem gradeadas e fossem portas, em vez de janelas, de uma delas seria possível aceder, descendo dois degraus, a um caminho que passa por entre as árvores do jardim.



19 de outubro de 2019

Mona Lisa




Ao passar por uma loja de móveis, questionei-me: — Ir ao Louvre para quê?
Com um enquadramento tão aleatório e provisório quanto a própria existência — as costas de um frigorífico, um móvel feito só de interiores, um espelho, abat-jours de gosto duvidoso, bocados de camas e sofás — e aquela iluminação por candeeiros do mundo real, consegue-se uma integração entre a arte e a vida que nos faz repensar as duas e que não se encontra em museu nenhum do mundo.



17 de outubro de 2019

Rotundas da vida




Nas rotundas da vida, quando tantos caminhos são possíveis, há por vezes sinais que vêm ajudar-nos a escolher o sentido a seguir. Se um dia alguém se lembrar de colocar no mesmo poste uma seta para a esquerda a dizer "imperiais", lá vão regressar as crises existenciais.



21 de agosto de 2019

Uma curiosa obra do acaso




Em "Venda das Raparigas", uma localidade a meio caminho entre Lisboa e Coimbra, num espaço de não mais de 500 metros, podem contar-se seis sinais de trânsito daqueles em que uma menina é levada pela mão de um adulto. Uma curiosa obra do acaso. Ou talvez não...



15 de agosto de 2019

Taberna Raposo





Por cima da porta da esquerda pode ler-se: «Nesta casa meus senhores / Há encontros curiosos / Há caçadores e mergulhadores / E também muitos mentirosos». É na Taberna Raposo, uma pérola dos tempos em que os estabelecimentos eram ao mesmo tempo comerciais e sociais. Uma taberna tradicional, já com muitas décadas de vida, imaculadamente preservada, como devem haver muito poucas por todo o mundo. A fazer as honras da casa, na sua simpatia, o Sr. Mário Jorge Raposo, orgulhoso dos 40 anos durante os quais, inicialmente acompanhado pelo seu pai, tem mantido esta casa. Ali, bem no meio de Ponta Delgada, ainda hoje fregueses e amigos se confundem. Não se vai lá para consumir, mas para estar, conversar ou até jogar. Beber um copo é apenas um pretexto. Ficamos com saudades de um tempo que já não existe fora de templos como este. Uma parte de nós quer lá ficar.




O precioso hábito de conversar com a própria sombra





Chronos




No tempo vão-se incorporando e assim afastando, lentamente, as marcas com que um dia acreditámos conseguir eternizá-lo.



17 de setembro de 2018

Companheiro de viagem




É a nossa necessidade de companheiros que nos leva a criá-los, desde que eles se disponham a serem por nós criados. Este vive à beira de uma circular de Coimbra, daquelas que os automóveis não param de calcorrear durante todo o dia. É uma espécie de sem abrigo. Julgo ser o esquecimento a que felizmente é votado que o faz permanecer vivo, igual a si próprio. Tem uma personalidade, uma força, uma interioridade, que não são habituais nos outdoors seus congéneres. Convida-me a adivinhá-lo, a entendê-lo. Talvez seja isso que me cative.
Já nos tornámos amigos. Todos os dias, logo pela manhã, lá está à minha espera para me contar qualquer coisa diferente, nunca igual àquela de que me falou no dia anterior. Às vezes respondo-lhe, outras não, mas fico sempre satisfeito por ainda o ver lá, receando todos os dias o dia em que tenha sido substituído por um daqueles cartazes publicitários iguais a todos os outros: sérios, monótonos, repetitivos, explícitos, sem interior, sempre iguais e manipulares, a tentarem convencer-nos todos os dias a comprarmos sempre a mesma coisa. Por esses não é possível sentir afecto, muito menos deles sermos amigos.
Julgo ter sido o medo de o perder que me levou a fotografá-lo e a afeição que por ele sinto que me incitou a escrever estas linhas.



2 de setembro de 2018

O lugar do pensamento




A faina pesqueira já tinha terminado há umas boas horas. À sombra, na esplanada de um café de poucas pretensões, os seus camaradas de embarcação entretinham-se a beber cerveja enquanto trocavam algumas verdades sobre as mulheres. «Elas estão-se todas a lixar para nós, os grelos são todos iguais, o importante é um gajo ter um» — afirmava um deles, visivelmente aquele que ostentava um maior pendor filosófico. Algum tempo antes, tomando a direcção do horizonte, já Filipe tinha saído do café com duas cervejas na mão. Na solidão que a companhia dos pensamentos permite, saboreava-as sentado no muro que divide os dois mundos de que o seu mundo é feito. Olhando-o, percebemos que aquele "lugar" é o do próprio pensamento: longe dos lugares-comuns, numa zona de fronteira, com o infinito por horizonte.





16 de maio de 2018

São as ovelhas que pastam os pastores




Não seria possível aos pastores viverem sem ovelhas, pois não teriam como justificar a si próprios a sua secreta necessidade de se evadirem do mundo durante todo o dia, todos os dias. Sem que nem uns nem outros se dêem conta, na verdade são as ovelhas que levam os pastores enquanto pastam.



23 de dezembro de 2017

O ciclo do sol




De madrugada o navio atraca. O sol, que lá dormira durante a noite, deixa-o para ir brincar ao apaga-estrelas. Depois sobe, céu acima, para de lá avistar melhor o mundo. No final da tarde o navio sairá do porto em direcção ao mar alto, onde recolherá o sol já cansado da sua jornada, junto ao horizonte, para o trazer de volta na madrugada seguinte.



15 de abril de 2017

Fantasma




O fotógrafo é um fantasma em busca de reflexos de si



Viagem




Uma viagem é o diálogo entre nós, as sombras de nós que nela deixamos e as sombras que dela nas nossas guardamos



Facing life




«And right now I'm afraid, I'm afraid of walking away again, I'm afraid of what I might find, but I'm even more afraid of not facing this fear.»

Wim Wenders, "Paris, Texas"



1 de abril de 2017

Dança




Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar

E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com o seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar.

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz

Chico Buarque de Hollanda / Vinicius de Moraes



19 de março de 2017

Quatro reflexões fotográficas sobre a liberdade


 (foto: gaivota sobrevoando a escultura de homenagem a Nelson Mandela, Figueira da Foz)

No início era… não sei. Mas no final será a liberdade! Ou, em vez dela, a mágoa de não a ter conquistado, de não ter conseguido construí-la durante uma vida.


 (foto: estabelecimento prisional de Lisboa)


Os muros e o arame farpado limitam o que em nós anda, não o que em nós voa.



As grades, as pontes e também o olhar que alcança porque deseja, são condição daquela possibilidade de nos superarmos a que chamamos liberdade.



É no espaço interno que da luz, filtrada pelas grades, se forma a imagem.



17 de março de 2017

Notas de uma visita ao Hospital Júlio de Matos (CHPL)



Louco é o outro em mim.


Fundo o encerro, de nós me ausento.


Ambos partilhamos o desespero de um caminho que irremediavelmente nos desencontra.



1 de janeiro de 2017

Lugar para a eternidade


Cemitério da Serra da Boa Viagem, Figueira da Foz


Quando um dia me finar
Que belo sítio para ficar
A fazer amor com as estrelas
Embalado pelo som do mar



16 de outubro de 2016

... poétiquement


foto: autor desconhecido


"Vivre en prose n'est que survivre. Vivre c'est vivre poétiquement"

Edgar Morin



29 de maio de 2016

O ciclo da lua




Chegada a madrugada, vem o camião porta-luas e leva-a, trazendo-a de volta no início da próxima noite.



26 de janeiro de 2016

O centro do mundo




Dão-se, de mãos dadas
A si, ao outro, ao mundo
Que está ali todo, imenso
Onde a terra, o mar e o céu se encontram
Também eles assim se dão
Cada um como sabe
Em caminhos, ondas, ventos, mãos
Que vêm ao encontro e encontram
E desafiam
Fazem o encontro e a vida
Viva



11 de outubro de 2015

Como podem, dentro de si, uma música conter tantas músicas, um lápis conter tantos desenhos, uma pessoa conter tantas pessoas…?




Quino


foto: Ricardo Santana


«Cada realidade contém muitas outras realidades dentro dela. É como se o mundo estivesse grávido de outros "munditos", de outros mundos muito melhores que este e há que ajudá-los a nascer.»
Eduardo Galeano in "O tempo e o modo", realização: Graça Castanheira



5 de agosto de 2015

Hardcore


foto: Susana Paiva


        Saber
        é saber saber-te
        sabermo-nos unir

        unirmo-nos
        é conhecermo-nos
        sabermos ser

        por fim sermos
        é sabermos
        sabermo-nos

        conhecermos
        a surda áspide

              Ana Hatherly


A observação do outro: a diferença é o que nos une e separa. Quando o eu descobre o outro começa a guerrilha sem fim. O nó que se faz-desfaz. A escolha: o gelo da solidão ou a horrível queimadura da vida.

              Ana Hatherly


1 de julho de 2015

velhos-novos


foto: autor desconhecido


Cruzando as suas vidas ao cruzarem-se, numa idade sem idade... ou com todas as idades, abraçam o impossível. Renunciando ao possível ou tornando-o assim possível...



28 de junho de 2015