25 de abril de 2014

Portugal de Abril




Ainda hoje continua a impressionar o sentido de oportunidade da costela machista de quem fez tal desenho neste cartaz de uma conferência do PCP em 1986. Podemos ver nele apenas a expressão de um espírito brejeiro. Podemos, por outro lado, percebê-lo como uma ilustração notável do que na época se designava por 'reacção'. Uma reacção contra a esta e tantas outras emancipações. E foram muitas as que na altura floresceram, algumas das quais vemos e sentimos agora em lenta agonia. Podemos ainda olhar para este pequeno graffiti como uma sátira ao que houve de euforia e de omnipotência no sonho colectivo de quem viveu o Portugal de Abril em tempo real. Uma sátira que, de forma sarcástica, transforma a utopia numa miragem.
Mudam-se os tempos, mudam-se os desenhos. É com pesar que reconheço que num cartaz das comemorações dos 40 anos do 25 de Abril o desenho a acrescentar-lhe até poderia ser o mesmo, mas para que houvesse algum realismo teria de ser 'metido' na zona corporal que mais se adequasse para o efeito ou, pelo menos, colocado no mesmo sítio mas com uma outra inclinação, bem menos erecta. Entretanto o cravo murchou e foi caindo no esquecimento. Abril necessita urgentemente do famoso comprimido azul.



21 de abril de 2014

A dança da vida (parte 2)




Foi em Tomar, no Convento de Cristo. Surpreendidos pela música que ecoava pelos claustros, os visitantes foram-se aproximando, como borboletas errantes que à noite procuram a luz. Há algo de mágico nestes momentos em que a música e os músicos nos interpelam de surpresa e que faz com que apeteça que se repitam todos os dias, em todos os lugares.
Na televisão da cafetaria passava em rodapé a notícia da morte de Gabriel García Márquez. A música que continuava a tocar lá fora passou a soar a requiem. Tinha terminado a dança da vida de quem tantas vezes numa só frase disse mais sobre a massa de que somos feitos do que muitos o fizeram durante toda uma existência. Era sexta-feira de Páscoa. Pode ter sido apenas coincidência.





11 de abril de 2014

Amor à primeira vista




Algo nos toca. De repente deixamos de ter olhos para tudo o resto. Se tivermos a sorte do nosso lado, sintonizamos no mesmo comprimento de onda e torna-se possível fazer o alinhamento entre o olho, o coração e o cérebro, de que falava Cartier-Bresson. Fixamo-nos na magia de uma visão que tentamos fazer perdurar. O que nos tocou e qual a parte de nós que se deixou tocar talvez nunca cheguemos a perceber. Assim acontece na fotografia. Assim acontece no amor à primeira vista.



5 de abril de 2014

Imagens


I - Isto não é uma clarabóia




II - Depois da imitação, o original…




III - Esta (não) sou eu




A primeira imagem, se não estivesse escrito que não é uma clarabóia, dificilmente se perceberia que o é.
Já a segunda, a conhecida pintura de René Magritte, facilmente a identificaríamos com um cachimbo, não fosse o aviso do pintor de que não o é. Magritte era especialista na compreensão do infindável jogo de espelhos através do qual em nós relacionamos a(s) realidade(s) com as representações que dela(s) fazemos. Ele lançou o desafio de que alguém tentasse encher o seu 'cachimbo pintado', que constitui a representação de um cachimbo e por isso com ele facilmente se confunde, mas não é, de facto, um cachimbo.
A terceira imagem é um auto-retrato feito por uma senhora com cerca de 55 anos de idade, com um peso muito considerável e de expressão algo triste. Ao olhar de um observador externo, seria difícil encontrar imagem mais contrastante com a aparência de quem ela representa, tanto no que refere à postura, ao volume ou às formas corporais, como à maneira de se vestir. Questionada sobre a verosimilhança daquele auto-retrato, a autora considerou-o parecido consigo própria, não quando tinha 10 ou 20 anos, mas na actualidade. Como se o tempo tivesse parado algures e assim tivesse permanecido até hoje.
Dizia um spot publicitário de uma conhecida marca de relógios que 'o tempo é o que fazemos com ele'. A ideia parece conter dois sentidos que se influenciam mutuamente: 'como vivemos o tempo de que dispomos' e 'o que fazemos ao próprio tempo', o que inclui naturalmente a forma como o representamos. Tanto em relação ao corpo, como a tudo o que faz parte daquilo que somos, poderíamos fazer uso do mesmo raciocínio.