25 de abril de 2014

Portugal de Abril




Ainda hoje continua a impressionar o sentido de oportunidade da costela machista de quem fez tal desenho neste cartaz de uma conferência do PCP em 1986. Podemos ver nele apenas a expressão de um espírito brejeiro. Podemos, por outro lado, percebê-lo como uma ilustração notável do que na época se designava por 'reacção'. Uma reacção contra a esta e tantas outras emancipações. E foram muitas as que na altura floresceram, algumas das quais vemos e sentimos agora em lenta agonia. Podemos ainda olhar para este pequeno graffiti como uma sátira ao que houve de euforia e de omnipotência no sonho colectivo de quem viveu o Portugal de Abril em tempo real. Uma sátira que, de forma sarcástica, transforma a utopia numa miragem.
Mudam-se os tempos, mudam-se os desenhos. É com pesar que reconheço que num cartaz das comemorações dos 40 anos do 25 de Abril o desenho a acrescentar-lhe até poderia ser o mesmo, mas para que houvesse algum realismo teria de ser 'metido' na zona corporal que mais se adequasse para o efeito ou, pelo menos, colocado no mesmo sítio mas com uma outra inclinação, bem menos erecta. Entretanto o cravo murchou e foi caindo no esquecimento. Abril necessita urgentemente do famoso comprimido azul.