5 de agosto de 2014

"Coisas" das artes




Correu pelo facebook um convite aos leitores para um encontro com o escritor Pedro Chagas Freitas, no último sábado, com hora marcada e tudo, na Figueira da Foz. Como estou pouco habituado a estas coisas, pensei na minha ignorância que ele viria falar sobre a obra ("Prometo Falhar"), sobre ele, sobre literatura, sobre a vida, o que quer que fosse. Compareci pontualmente. Para meu espanto, tudo o que estava a passar-se era um senhor, ainda jovem, bem parecido, de óculos, a assinar livros e uma fila de algumas dezenas de pessoas, maioritariamente mulheres, a aguardar pacientemente pela sua vez de se sentarem e lhe estenderem o livro para autografar. Fiquei até com pena dele. De repente vieram-me à memória imagens de Paulo Portas em época de campanha eleitoral, nos mercados a distribuir chapéus e bandeiras e a abraçar e beijar peixeiras. São os ossos do ofício de um político. E os escritores, pelos vistos, também os têm.
Sentir-me defraudado ou desapontado com as "coisas" das artes é algo que ciclicamente me acontece. Desta vez foi por me sentir apanhado numa simples operação de marketing quando esperava mais do que isso, talvez apenas por ingenuidade minha — bem que no convite o escritor prometia falhar, mas pensei na altura que o sentido daquelas palavras fosse outro. Outras vezes é por me sentir a assistir a demonstrações públicas de um narcisismo exacerbado, para as quais a paciência já escasseia. Outras ainda, de forma próxima à anterior, é por me dar conta da forma auto-centrada — uma espécie de autismo petulante — como alguns círculos artísticos funcionam.
Recordo um domingo, já há mais de 20 anos, em que apanhei o combóio para Braga para ir visitar uns encontros de fotografia. Sobre eles tinha lido uma notícia de várias páginas na revista do Expresso. Nessa notícia quase se sugeria que por aqueles dias Braga seria a capital do mundo, em virtude da qualidade e da importância daquelas exposições. Fiquei entusiasmado e expectante. Cheguei cedo para não perder pitada e para evitar as aglomerações que nestas coisas começam lá para o meio do dia. Puxei de um papel que trazia no bolso onde tinha apontado o nome de três ou quatro locais onde as exposições aconteceriam e dirigi-me ao único que eu conhecia. Aí a exposição só abria ao público depois do almoço, mas teria de haver por ali alguma indicação sobre as restantes, que começavam mais cedo: Nada! Nem nas vitrinas que davam para a rua, onde se atropelavam cartazes diversos, havia um que fosse sobre aquele evento. Perguntei então a um senhor que ali passava pelos "encontros" e pelos locais onde decorriam. Para meu espanto, ele desconhecia tanto uns como os outros. Ignorante! — pensei. Pouco depois, enquanto tomava um café, fiz a mesma pergunta à senhora da pastelaria, que conferenciou primeiro com os colegas e depois com alguns clientes conhecidos e conhecedores da cidade. Veredicto final da assembleia da pastelaria: — Tem mesmo a certeza de que essa coisa das fotografias é aqui em Braga? É que não ouvimos falar de nada e ninguém sabe onde ficam esses sítios. Fui fazendo a mesma pergunta aqui e ali, sempre com a mesma resposta a perseguir-me. Já desesperado, avisto um polícia. Salvação! Faço-lhe "a" pergunta, que nesta altura já me saía de forma mecânica. Ainda aguardo que ele comunique pelo rádio com os colegas que estão na esquadra, mas no fim levo com "a" resposta. Aquela a que já me habituara. Agradeci-lhe o empenho, voltei à estação dos comboios, comprei o bilhete de regresso e despedi-me, tanto de Braga como dos encontros de fotografia que era suposto terem feito parar o mundo e arredores. Regressei a pensar de onde viria tamanha displicência na divulgação e na informação sobre o evento. Enquanto espectador senti-me não só defraudado, como maltratado e talvez não tenha sido eu o único. Todos sabemos dos problemas da falta de verbas e de apoios, da falta de formação do público e do decorrente desinteresse generalizado por estas "coisas", o que até poderia em parte justificar o desconhecimento daqueles que não souberam dar-me a resposta que eu desejava…, mas isto de fazer dos eventos artísticos (principalmente aqueles para os quais contribuem dinheiros públicos) algo dirigido aos próprios e aos amigos, por várias ordens de razões, não me parece bem.
Se a arte não cumprir a função de janela do e para o mundo, não for um "bem" partilhado e partilhador, se a comunicação e a comunhão não lhe forem inerentes e, em algum ponto ou momento da sua existência, não encontrar na generosidade uma motivação, talvez não passe de um mero exercício de masturbação intelectual — individual ou grupal — ou, em alternativa, se arrisque confundir-se com uma qualquer actividade mercantil.



10 de julho de 2014

Perfil




Nos últimos tempos tenho recebido alguns mails em que os autores, normalmente ligados ao meio académico, à laia de rodapé, fazem referência a uma série de títulos, cargos ou posições profissionais que assumem. Nalguns casos trata-se quase de um currículo resumido. De cada vez que recebo um destes mails, sem que tenha algo para lhes mandar em troca, mais insignificante fico a sentir-me. Para combater esta onda de auto-desvalorização que me tem assolado, decidi também eu criar um desses textos em letra miúda, com o qual a partir de agora passo a terminar todos os meus mails. Vai ser assim:

«Fulano de Tal. Responsável pelo que é e pelo que faz. Às vezes também responsabilizado por coisas que nunca fez e também por aquilo que corre mal e que por isso ninguém quer assumir. Coordenador lá em casa das áreas científicas de Matemática e Estudo do Meio, no âmbito do Projecto de Trabalhos de Casa em vigor durante o ano lectivo. Director Executivo do Departamento de Mecenato Caseiro, tendo a seu cargo o financiamento a fundo perdido de todas as actividades que concernem a práticas desportivas, culturais e saídas nocturnas da canalha. Com Pós-Doutoramento na área de investigação de mentiras adolescenciais, chico-espertices e falcatruas afins.»

Só de ler isto já me sinto outro.


4 de julho de 2014

Gerações


I - (Des)encontro de gerações




II - (Nova) geração vista por si própria




III - Nova geração vista pela geração anterior

foto: Ricardo Santana



21 de junho de 2014

Retrato de família


foto: "Foto Cabecinha", Setúbal


As crianças desenham a sua família de mil maneiras. Para além de construírem diferentes cenários familiares, estes desenhos parecem ser verdadeiras encenações em que elas inventam várias famílias e experimentam outras tantas maneiras de nelas e com elas viverem. Colocam no desenho só quem querem que lá esteja e a fazerem o que elas querem que eles façam, realizando assim os seu desejo, ou então desenham quem receiam que lá possa estar, para os controlarem melhor. Posicionam-se a si próprias, em relação aos restantes, na posição em que se vêem na sua família, outras vezes naquela em que gostavam de estar, outras ainda naquela em que mais temem vir a ficar, fazendo neste caso desenhos que mais parecem rituais de exorcização dos seus medos. Quando um desses desenhos materializa de forma particularmente conseguida algum dos mitos mais inquietantes daquele que o desenhou, fica condenado a permanecer colado na parede por mais tempo do que seria de prever. Por vezes não é fácil perceber porquê. Nessa altura intervêm os pais:
— Quando fizeste esse desenho ainda não desenhavas as pessoas tão bem como agora.
— Mas eu gosto delas assim.
— Porque é que em vez desse não pões na antes aquele, que é mais bonito, que desenhaste ontem?
— Porque não! Tem que ser este!
E lá permanece pendurado no mesmo local — da parede o do desenhador. E lá continua aquela criança todos os dias a olhar para ele, pois aquele desenho, mais do que a tradução que o lápis conseguiu fazer do que se passa à sua volta, é um sítio em que ela se vê e revê qualquer coisa que sabe ter a ver consigo, substituindo com vantagem os espelhos na parede do quarto. Quando a tal "coisa que sabe ter a ver consigo" já não for sentida de forma tão inquietante, pode então substituir aquele por outro desenho que na altura se imponha.
A maior parte dos adultos, pelo contrário, parece ter perdido o hábito de desenhar, tanto a família como tudo o resto. No entanto, ela não deixou de ser importante, eles não deixaram de ter medos ou anseios, nem deixaram de ter a necessidade de pendurar nas paredes partes de si e olhá-las de forma repetida, para que vão conseguindo compreendê-las, até que com elas se reconciliem. Talvez seja para substituírem aqueles desenhos, da altura em que estes adultos eram crianças, que servem os retratos de família. Também eles podem ser desenhados e encenados de mil maneiras, ter as mais diversas combinações de personagens e ficar, que nem páginas remotas da vida desses adultos-crianças, pendurados na parede durante o tempo necessário para que neles se revejam. Uns mais triviais, outros especiais...
Quando uma das modelos da fotografia que está por cima destas linhas, que tinha povoado de infância a nossa infância, nos surpreendeu com o seu desaparecimento, mais do que triste, vi-me invadido por um estranho sentimento de culpa: como poderia agora retribuir o que me havia dado? Já não podia. E viver com a consciência dessa impossibilidade? Nos dias seguintes, estas perguntas foram alimentando o lume em que se foi cozinhando o esboço de uma convicção: o que não tem preço não é para ser pago, nem o que é feito por generosidade fica à espera de retribuição. É mais como nas corridas de estafetas, em que nunca voltamos a dar o testemunho àquele de quem o recebemos, nem sequer ele espera isso de nós. Mas se não o dermos a quem vem a seguir traímos aquele que a nós o confiou. Na altura, esta resposta, se não acertada, pareceu-me pelo menos suficientemente apaziguadora para que durante os dias que se seguiram eu pudesse deixar de olhar repetidamente aquele retrato.



18 de junho de 2014

À la minute




«Tive sempre tanto medo dos fotógrafos: ordenam-nos que fiquemos quietos e principiam a examinar-nos, a sondar-nos, a aproximar-se, a afastar-se, semiescondidos naquela horrível órbita mecânica e míope que pestaneja de tempos a tempos a sua pálpebra circular, pedem-nos que sejamos naturais enquanto nos espiam só aparelho e mãos (um segundo aparelho, pendurado ao pescoço, fita-nos a baloiçar por alturas da barriga) e nisto um estalido devora-nos, a tal órbita mecânica engole-nos de súbito, passamos, como os mortos, para um quadrado de papel onde não somos nós continuando a ser nós, onde nos tornamos uma cara sem tempo ou um sorriso que não pertence a ninguém
(eu não sorrio assim)
e me esconde e me enfeita como um bigode postiço, impossível ser natural se deixei de existir congelado neste acesso, nesta expressão, nesta atitude que nunca foram minhas, nenhuma pessoa é assim, nenhum vivo é assim, estas feições tão sérias sobre as minhas feições a fingirem-se alegres, este homem mais velho do que eu
(sempre mais velho do que eu)
[…]
- Não se mexa agora, está óptimo
e embora não me mexa diminuo por dentro dado que o fotógrafo
- Tente descontrair-se
dado que o fotógrafo
- Não pense em mim, faça de conta que não estou
quer dizer
- Deixe que o mate
pestaneja a pálpebra circular e o mate, me aproxime, me afaste, gire à sua volta e o mate, o devore, o engula, o tome numa cara sem tempo ou num sorriso que não pertence a ninguém, qualquer dia um senhor numa cómoda em trânsito para a arca do sótão e o esquecimento final no meio de vestidos antigos, caixas de chapéus, cadeiras que o empalhador não consertaria nunca, e depois da arca do sótão a venda a peso a sujeitos esquisitos que compram lixo e pó e os vendem a sujeitos ainda mais, blindados contra as alegrias, que adoram lixo e pó, eu bisavô de bisnetos falsos num antiquário qualquer, não me mande ficar quieto, não principie a espiar-me, por favor não me encoraje
- Perfeito, perfeito
não me rode o corpo para a esquerda e o nariz para a direita, não me sugira que acenda um cigarro ou poise o queixo na palma, não estenda esse dedinho de mágico de feira
- Concentre-se no meu dedo
ao concentrar-me no seu dedo o estalido da pálpebra e depois do estalido só o banco onde estive, só a janela por trás, só os prédios sem mim, talvez o cigarro que me sugeriu que acendesse a apagar-se no chão à medida que um sorriso semelhante a um bigode postiço se evapora lentamente com o último sol.»

António Lobo Antunes
(texto para o livro "Olhares" de Eduardo Gageiro)



11 de junho de 2014

Há pessoas assim (XII)




O homo churrascus posiciona-se taxonomicamente entre o girassol e o lagarto do deserto. Distribui-se ao longo de toda a costa portuguesa, sendo mais abundante durante os meses mais quentes do ano. É comum ser avistado várias vezes ao longo do dia a espalhar com satisfação um líquido viscoso por todo o corpo, que lhe dá um aspecto peganhento e gorduroso. Mantém-se num estado vegetativo durante os dias de sol, em que só se movimenta para inverter a posição do corpo, mostrando-se mais activo durante a noite, altura em que sai para ostentar perante outros mamíferos da mesma espécie a cor adquirida durante o dia. Os estudiosos que se dedicam a observar e a registar pacientemente os hábitos e as características físicas desta espécie designam-se por mirones. Podem ser avistados por detrás dos arbustos que bordejam as arribas junto às praias oceânicas e identificam-se facilmente pela presença de uma motorizada estacionada na área circundante, mas não demasiado próxima, pelo olhar desconfiado que lançam sobre quem passa por perto e por terem as mãos normalmente ocupadas a agarrar os binóculos ou alguma outra parte do corpo.



9 de junho de 2014

Há pessoas assim (XI)






Uma manhã fiquei a observar os bandos de aves que cruzavam o céu. O seu voo parecia uma dança, elegante, ágil, sincronizada. Apercebi-me então de uma que destoava de todas as outras. Parecia mais mal acabada. Tinha formas um pouco toscas, aquadradadas, pouco elegantes, uma aerodinâmica duvidosa e fazia um ruído forte e irritante. O seu voar era menos ágil que o das companheiras, deslocando-se de forma robotizada, seguindo sempre na mesma direcção, sem inflexões, nem movimentos sinuosos. Seria de uma espécie menos evoluída ou poderia ter sofrido alguma mutação genética  pensei. Talvez se sentisse envergonhada ao passar entre as restantes. E se, apesar do que a aparência sugere, acontecesse, como tantas vezes já vi, justamente o inverso?  questionei-me. Se, vá-se lá saber porquê, aquela estranha ave  ou quem a tivesse feito  afinal se sentisse arrogantemente superior às outras? Mas logo reconsiderei:  Isso não seria possível! Só se fosse por inveja.



7 de junho de 2014

Há pessoas assim (X)


Há pessoas que comunicam assim…


Outras assim…



E algumas fazem-no com tal habilidade que acreditamos que não as termos entendido só pode ter sido falha nossa.



4 de junho de 2014

Há pessoas assim (IX)




Quem nunca se sentiu assim? Alinhados, contrariados, resignados, de vidas rotinadas, monótonas, repetitivas, sem sobressaltos, assombros ou pensamentos auto-reflexivos: camelos!



31 de maio de 2014

Há pessoas assim (VIII)




De ferroada sempre pronta, não desperdiça uma oportunidade de pousar as patas nos 'podres' de quantos existam ao seu redor.



28 de maio de 2014

Há pessoas assim (VII)




Cresce onde seria de esperar que definhasse, onde outros se queixariam de falta de condições ou da injustiça da sua circunstância.



26 de maio de 2014

Há pessoas assim (VI)




Para ele o mundo é assustador, os outros uma ameaça, a vida um espinhoso e empobrecedor exercício de couraçada clausura. Só não afasta os insectos...

21 de maio de 2014

Há pessoas assim (V)




A vida, de um verde tímido, ainda escondida atrás do que entretanto secou, só se deixa ver após o 'clima' ter-se tornado mais favorável e o gelo ter começado a derreter. Noutros casos, ao contrário de ser a vida que se esconde por debaixo do gelo, é o gelo que se esconde por debaixo do que parece ser vida. Esses costumam ter um prognóstico mais reservado.



17 de maio de 2014

Há pessoas assim (IV)




A sua beleza encanta. Parece desejar a aproximação, mas, talvez por insegurança, torna-a demasiado espinhosa para quem arrisque tentá-la. Resta-lhe seduzir e esperar ser contemplada, admirada, desejada.



14 de maio de 2014

7 de maio de 2014

Há pessoas assim (I)


foto: Cora Ronai


Ser-se 'cabra' é uma questão de natureza, não de circunstância.



25 de abril de 2014

Portugal de Abril




Ainda hoje continua a impressionar o sentido de oportunidade da costela machista de quem fez tal desenho neste cartaz de uma conferência do PCP em 1986. Podemos ver nele apenas a expressão de um espírito brejeiro. Podemos, por outro lado, percebê-lo como uma ilustração notável do que na época se designava por 'reacção'. Uma reacção contra a esta e tantas outras emancipações. E foram muitas as que na altura floresceram, algumas das quais vemos e sentimos agora em lenta agonia. Podemos ainda olhar para este pequeno graffiti como uma sátira ao que houve de euforia e de omnipotência no sonho colectivo de quem viveu o Portugal de Abril em tempo real. Uma sátira que, de forma sarcástica, transforma a utopia numa miragem.
Mudam-se os tempos, mudam-se os desenhos. É com pesar que reconheço que num cartaz das comemorações dos 40 anos do 25 de Abril o desenho a acrescentar-lhe até poderia ser o mesmo, mas para que houvesse algum realismo teria de ser 'metido' na zona corporal que mais se adequasse para o efeito ou, pelo menos, colocado no mesmo sítio mas com uma outra inclinação, bem menos erecta. Entretanto o cravo murchou e foi caindo no esquecimento. Abril necessita urgentemente do famoso comprimido azul.



21 de abril de 2014

A dança da vida (parte 2)




Foi em Tomar, no Convento de Cristo. Surpreendidos pela música que ecoava pelos claustros, os visitantes foram-se aproximando, como borboletas errantes que à noite procuram a luz. Há algo de mágico nestes momentos em que a música e os músicos nos interpelam de surpresa e que faz com que apeteça que se repitam todos os dias, em todos os lugares.
Na televisão da cafetaria passava em rodapé a notícia da morte de Gabriel García Márquez. A música que continuava a tocar lá fora passou a soar a requiem. Tinha terminado a dança da vida de quem tantas vezes numa só frase disse mais sobre a massa de que somos feitos do que muitos o fizeram durante toda uma existência. Era sexta-feira de Páscoa. Pode ter sido apenas coincidência.





11 de abril de 2014

Amor à primeira vista




Algo nos toca. De repente deixamos de ter olhos para tudo o resto. Se tivermos a sorte do nosso lado, sintonizamos no mesmo comprimento de onda e torna-se possível fazer o alinhamento entre o olho, o coração e o cérebro, de que falava Cartier-Bresson. Fixamo-nos na magia de uma visão que tentamos fazer perdurar. O que nos tocou e qual a parte de nós que se deixou tocar talvez nunca cheguemos a perceber. Assim acontece na fotografia. Assim acontece no amor à primeira vista.



5 de abril de 2014

Imagens


I - Isto não é uma clarabóia




II - Depois da imitação, o original…




III - Esta (não) sou eu




A primeira imagem, se não estivesse escrito que não é uma clarabóia, dificilmente se perceberia que o é.
Já a segunda, a conhecida pintura de René Magritte, facilmente a identificaríamos com um cachimbo, não fosse o aviso do pintor de que não o é. Magritte era especialista na compreensão do infindável jogo de espelhos através do qual em nós relacionamos a(s) realidade(s) com as representações que dela(s) fazemos. Ele lançou o desafio de que alguém tentasse encher o seu 'cachimbo pintado', que constitui a representação de um cachimbo e por isso com ele facilmente se confunde, mas não é, de facto, um cachimbo.
A terceira imagem é um auto-retrato feito por uma senhora com cerca de 55 anos de idade, com um peso muito considerável e de expressão algo triste. Ao olhar de um observador externo, seria difícil encontrar imagem mais contrastante com a aparência de quem ela representa, tanto no que refere à postura, ao volume ou às formas corporais, como à maneira de se vestir. Questionada sobre a verosimilhança daquele auto-retrato, a autora considerou-o parecido consigo própria, não quando tinha 10 ou 20 anos, mas na actualidade. Como se o tempo tivesse parado algures e assim tivesse permanecido até hoje.
Dizia um spot publicitário de uma conhecida marca de relógios que 'o tempo é o que fazemos com ele'. A ideia parece conter dois sentidos que se influenciam mutuamente: 'como vivemos o tempo de que dispomos' e 'o que fazemos ao próprio tempo', o que inclui naturalmente a forma como o representamos. Tanto em relação ao corpo, como a tudo o que faz parte daquilo que somos, poderíamos fazer uso do mesmo raciocínio.



28 de março de 2014

Antídoto

Algumas mensagens deste blog, pela sua natureza, podem provocar o agravamento de estados depressivos insipientes. Para contrariar este efeito, disponibiliza-se uma terapêutica de tripla acção através de três vídeos com comprovados efeitos anti-depressivos, que recorrem à utilização de princípios activos complementares ('o que aquece por dentro', 'Acredita!', 'Deixa-te de merdas e faz-te à vida!'). Em caso de persistência ou agravamento dos sintomas, interrompa imediatamente o seu visionamento e consulte o seu médico ou farmacêutico.

23 de março de 2014

Aniversário





Poderia esta ser uma janela da casa de que nos fala Fernando Pessoa, uma casa antiga de família, que mal terá sobrevivido a si própria, hoje fria, possivelmente já vendida. Podemos tentar imaginar, por detrás das teias, o que dela resta ainda impregnado pelo cheiro dos momentos de felicidade, de desespero, de conforto e de solidão daqueles que noutros tempos a habitaram ou pelas alegrias das crianças que ali terão festejado o dia dos seus anos, hoje possivelmente tão sobreviventes a si-mesmas quanto a própria casa.


«No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui
A que distância!
(Nem o acho)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou  hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,

Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!»

Álvaro de Campos


19 de março de 2014

Pai




Há quem diga que "olhos que não vêem, coração que não sente". Como todos os veredictos ditados pelos adágios populares, às vezes até é verdade. Desta vez não. A foto é de Jean-Mark Bouju, de 2003 e na altura correu mundo por ter vencido o world press photo. Retrata um homem iraquiano num centro de detenção de prisioneiros de guerra do exército americano, a confortar o seu filho de quatro anos, não só devido ao calor, mas por ter ficado apavorado ao ver o pai ser encapuzado. Deixa-nos a pensar nas muitas coisas que definem o que é ser pai. Faz-nos recordar o filme "A vida é bela", em que Roberto Benigni, fazendo de pai, se desdobrava em habilidades para tornar a vida suportável para o filho, nas circunstâncias de horror em que ambos se encontravam.
Sobre o assunto, deixo um texto que, em parte, já tinha visto a luz do dia  por outras paragens:

Um dia o meu filho fez-me aquilo que todos os pais temem que os filhos façam — embora, no fundo, o desejem: pediu-me a lua. Desdobrei-me então em argumentos para o convencer de que estava lá muito longe e que eu não lhe chegava. Mas ele insistia: queria aquela bola! Confesso que me deixou embaraçado e confrontado com uma infinidade de desafios: aceitar a legitimidade do seu desejo; aceitar a minha impotência perante tamanha exigência; ajudá-lo a aceitar a desolação de não ver o seu desejo realizado e a decepção com um pai que é incapaz de realizar uma tarefa tão simples como alcançar uma bola que está já ali; fazer isto de modo a que o seu desejo de alcançar a lua não esmorecesse, mas que eventualmente ganhasse outros contornos e outras tantas formas de se concretizar; reconhecer que ambas as bolas são reais: aquela que todos reconhecemos como sendo a lua e aquela que ele ali colocou e que servia para satisfazer a sua vontade de naquele momento marcar uns golos; (re)aprender com ele — e deste modo ensinar-lhe — que aquilo que vimos está mais no olhar de quem vê do que nas coisas que são vistas. Hoje penso que ele por fim condescendeu por me ver tão atrapalhado. Na altura, convenci-me de que estava a tentar ajudá-lo a relacionar-se com a vida de forma criativa. Para me auto-consolar, claro está.
Mais tarde, já não me bastava responder-lhe aos desejos durante o dia. Passei a ter que cuidar também dos seus sonhos durante a noite, como quem lhe arruma o quarto. Vi-me então transformado num verdadeiro domador de fantasmas e pesadelos — daqueles que aparecem a quem se vai aventurando de forma vacilante por caminhos que ainda são desconhecidos.
O período seguinte, revi-o ironicamente retratado na banda desenhada da Mafalda. Resistindo à vontade dos seus pais para que tomasse banho, o Manelinho, investido de toda a sua autoridade, diz-lhes: «Não penso gelar nu nesse maldito banho! Compreenderam bem?». No quadro seguinte, aparece o Manelinho já dentro da banheira, a pensar: «É notável como compreenderam bem».
Eis-nos assim chegados à altura sempre crítica em que, como tão bem compreendeu Winnicott, a aceitação — a cada momento e de forma pessoal — dos desafios e do confronto impostos por um adolescente, com a consistência necessária para lhes sobreviver — sem retaliar, mas também sem desistir , definem muito do que é ser pai... Se é difícil!!
Nas últimas décadas tem-se vindo a enxertar uma nova fase neste percurso. Já o Outono vai longo e ainda as crias não saíram do ninho. A situação tem algo de contra-natura e a gestão da separação e da autonomia, dos pais e dos filhos, ganha novos contornos.
"Filhos criados, trabalhos redobrados", diz a expressão popular. "Mais uma volta, mais uma viagem" diria o senhor do carrossel... e um novo ciclo se inicia.
Chegado o dia em que, ao contrário de o levar pela minha mão, eu precise de ser levado pela mão dele, ou mesmo quando já nem isso for possível, talvez ainda assim possa continuar a ser pai. É que esta é uma tarefa que se exerce essencialmente no interior dos filhos, tornando-nos parte da sua coluna vertebral e assim continuando, para sempre, a tomar conta deles. Mas em segredo, sem que se apercebam, para não lhes beliscar o amor-próprio.


12 de março de 2014

Linguagens


foto: Chema Madoz


«Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade»

Alberto Caeiro


5 de março de 2014

Estamos vivos




Papéis com uma fotografia tipo passe como esta e uma cruz impressa a negro, em formato A4 ou A5, afixados em locais de passagem, a anunciar o falecimento recente de alguém, apesar de comuns, causam impacto, perplexidade e dor em quem conhecia o falecido e são ignorados por quem o não conhecia. Em qualquer dos casos são notícia. Num mesmo lugar público, alguém noticiar que continua vivo e congratular-se por isso causa igualmente perplexidade, não só pelo insólito, mas também por se tratar de uma não-notícia. Como se a morte fosse mais merecedora de registo que a vida. Como se fosse suposto acordarmos todos os dias, para sempre. Os papéis com a cruz impressa estão lá mais para nos lembrarem de que estamos enganados a este respeito do que para nos darem notícias. Nós é que teimamos em não perceber.


28 de fevereiro de 2014

Profana-Sagrada Família




Tal como em todos os outros templos que sucumbiram ao turismo e à mediatização, há algo de profano na Sagrada Família de Gaudí. Poderá ser da abundância de quiosques de "recuerdos" nas redondezas; da competição pela conquista dos céus entre os pináculos e os omnipresentes guindastes; de ter permanecido desde sempre como um monumento inacabado; dos turbilhões de turistas que a invadem, como aquele que compôs estas imagens e que, nem unicórnios, se relacionam com o sagrado disparando sobre ele com a câmara que lhes prolonga o olho e fixa o olhar, mas os impede de ver, escutar, cheirar, sentir.
O sagrado vive de costas voltadas para o mundano e para o conflito, encerra em si a ideia de completude e, como o sol do meio dia, não se deixa olhar de frente.





20 de fevereiro de 2014

«A culpa é minha e eu ponho-a em quem eu quiser»




A frase é brilhante. É do insuspeito Homer J. Simpson, patriarca da família Simpson. Confronta-nos com a ancestral tradição humana de expiar culpas por procuração, certamente bem mais remota que o bíblico ritual do bode expiatório.
A foto é igualmente brilhante. É de Henri Cartier-Bresson e foi tirada em Sevilha, em 1933. Confronta-nos com uma outra tradição, certamente tão antiga quanto o próprio Homem: a de negar insuficiências e fragilidades próprias através da exacerbação e do repúdio das dos outros, assim tornadas alheias.
Há quem fale do bullying como uma realidade recente, uma invenção feita em alguma escola nos arredores de Lisboa. Antes fosse!


5 de fevereiro de 2014

Obra póstuma de Miró




Na Fundació Joan Miró é fácil deixarmo-nos tocar pela criatividade, pela relação infantil com a realidade, pela alegria, pela irreverência deste desempoeirador de mentes. Já não seria suposto que o espaço envolvente se deixasse tocar com a mesma facilidade. Mas ali, entre as obras expostas, até as formas caprichosas que os vidros das janelas escolhem quando se partem parecem ter sido inspiradas pelo mestre. Em nenhum outro lugar os vidros se partem assim.