Correu pelo facebook um convite aos leitores para um encontro com o escritor Pedro Chagas Freitas, no último sábado, com hora marcada e tudo, na Figueira da Foz. Como estou pouco habituado a estas coisas, pensei na minha ignorância que ele viria falar sobre a obra ("Prometo Falhar"), sobre ele, sobre literatura, sobre a vida, o que quer que fosse. Compareci pontualmente. Para meu espanto, tudo o que estava a passar-se era um senhor, ainda jovem, bem parecido, de óculos, a assinar livros e uma fila de algumas dezenas de pessoas, maioritariamente mulheres, a aguardar pacientemente pela sua vez de se sentarem e lhe estenderem o livro para autografar. Fiquei até com pena dele. De repente vieram-me à memória imagens de Paulo Portas em época de campanha eleitoral, nos mercados a distribuir chapéus e bandeiras e a abraçar e beijar peixeiras. São os ossos do ofício de um político. E os escritores, pelos vistos, também os têm.
Sentir-me defraudado ou desapontado com as "coisas" das artes é algo que ciclicamente me acontece. Desta vez foi por me sentir apanhado numa simples operação de marketing quando esperava mais do que isso, talvez apenas por ingenuidade minha — bem que no convite o escritor prometia falhar, mas pensei na altura que o sentido daquelas palavras fosse outro. Outras vezes é por me sentir a assistir a demonstrações públicas de um narcisismo exacerbado, para as quais a paciência já escasseia. Outras ainda, de forma próxima à anterior, é por me dar conta da forma auto-centrada — uma espécie de autismo petulante — como alguns círculos artísticos funcionam.
Recordo um domingo, já há mais de 20 anos, em que apanhei o combóio para Braga para ir visitar uns encontros de fotografia. Sobre eles tinha lido uma notícia de várias páginas na revista do Expresso. Nessa notícia quase se sugeria que por aqueles dias Braga seria a capital do mundo, em virtude da qualidade e da importância daquelas exposições. Fiquei entusiasmado e expectante. Cheguei cedo para não perder pitada e para evitar as aglomerações que nestas coisas começam lá para o meio do dia. Puxei de um papel que trazia no bolso onde tinha apontado o nome de três ou quatro locais onde as exposições aconteceriam e dirigi-me ao único que eu conhecia. Aí a exposição só abria ao público depois do almoço, mas teria de haver por ali alguma indicação sobre as restantes, que começavam mais cedo: Nada! Nem nas vitrinas que davam para a rua, onde se atropelavam cartazes diversos, havia um que fosse sobre aquele evento. Perguntei então a um senhor que ali passava pelos "encontros" e pelos locais onde decorriam. Para meu espanto, ele desconhecia tanto uns como os outros. Ignorante! — pensei. Pouco depois, enquanto tomava um café, fiz a mesma pergunta à senhora da pastelaria, que conferenciou primeiro com os colegas e depois com alguns clientes conhecidos e conhecedores da cidade. Veredicto final da assembleia da pastelaria: — Tem mesmo a certeza de que essa coisa das fotografias é aqui em Braga? É que não ouvimos falar de nada e ninguém sabe onde ficam esses sítios. Fui fazendo a mesma pergunta aqui e ali, sempre com a mesma resposta a perseguir-me. Já desesperado, avisto um polícia. Salvação! Faço-lhe "a" pergunta, que nesta altura já me saía de forma mecânica. Ainda aguardo que ele comunique pelo rádio com os colegas que estão na esquadra, mas no fim levo com "a" resposta. Aquela a que já me habituara. Agradeci-lhe o empenho, voltei à estação dos comboios, comprei o bilhete de regresso e despedi-me, tanto de Braga como dos encontros de fotografia que era suposto terem feito parar o mundo e arredores. Regressei a pensar de onde viria tamanha displicência na divulgação e na informação sobre o evento. Enquanto espectador senti-me não só defraudado, como maltratado e talvez não tenha sido eu o único. Todos sabemos dos problemas da falta de verbas e de apoios, da falta de formação do público e do decorrente desinteresse generalizado por estas "coisas", o que até poderia em parte justificar o desconhecimento daqueles que não souberam dar-me a resposta que eu desejava…, mas isto de fazer dos eventos artísticos (principalmente aqueles para os quais contribuem dinheiros públicos) algo dirigido aos próprios e aos amigos, por várias ordens de razões, não me parece bem.
Recordo um domingo, já há mais de 20 anos, em que apanhei o combóio para Braga para ir visitar uns encontros de fotografia. Sobre eles tinha lido uma notícia de várias páginas na revista do Expresso. Nessa notícia quase se sugeria que por aqueles dias Braga seria a capital do mundo, em virtude da qualidade e da importância daquelas exposições. Fiquei entusiasmado e expectante. Cheguei cedo para não perder pitada e para evitar as aglomerações que nestas coisas começam lá para o meio do dia. Puxei de um papel que trazia no bolso onde tinha apontado o nome de três ou quatro locais onde as exposições aconteceriam e dirigi-me ao único que eu conhecia. Aí a exposição só abria ao público depois do almoço, mas teria de haver por ali alguma indicação sobre as restantes, que começavam mais cedo: Nada! Nem nas vitrinas que davam para a rua, onde se atropelavam cartazes diversos, havia um que fosse sobre aquele evento. Perguntei então a um senhor que ali passava pelos "encontros" e pelos locais onde decorriam. Para meu espanto, ele desconhecia tanto uns como os outros. Ignorante! — pensei. Pouco depois, enquanto tomava um café, fiz a mesma pergunta à senhora da pastelaria, que conferenciou primeiro com os colegas e depois com alguns clientes conhecidos e conhecedores da cidade. Veredicto final da assembleia da pastelaria: — Tem mesmo a certeza de que essa coisa das fotografias é aqui em Braga? É que não ouvimos falar de nada e ninguém sabe onde ficam esses sítios. Fui fazendo a mesma pergunta aqui e ali, sempre com a mesma resposta a perseguir-me. Já desesperado, avisto um polícia. Salvação! Faço-lhe "a" pergunta, que nesta altura já me saía de forma mecânica. Ainda aguardo que ele comunique pelo rádio com os colegas que estão na esquadra, mas no fim levo com "a" resposta. Aquela a que já me habituara. Agradeci-lhe o empenho, voltei à estação dos comboios, comprei o bilhete de regresso e despedi-me, tanto de Braga como dos encontros de fotografia que era suposto terem feito parar o mundo e arredores. Regressei a pensar de onde viria tamanha displicência na divulgação e na informação sobre o evento. Enquanto espectador senti-me não só defraudado, como maltratado e talvez não tenha sido eu o único. Todos sabemos dos problemas da falta de verbas e de apoios, da falta de formação do público e do decorrente desinteresse generalizado por estas "coisas", o que até poderia em parte justificar o desconhecimento daqueles que não souberam dar-me a resposta que eu desejava…, mas isto de fazer dos eventos artísticos (principalmente aqueles para os quais contribuem dinheiros públicos) algo dirigido aos próprios e aos amigos, por várias ordens de razões, não me parece bem.
Se a arte não cumprir a função de janela do e para o mundo, não for um "bem" partilhado e partilhador, se a comunicação e a comunhão não lhe forem inerentes e, em algum ponto ou momento da sua existência, não encontrar na generosidade uma motivação, talvez não passe de um mero exercício de masturbação intelectual — individual ou grupal — ou, em alternativa, se arrisque confundir-se com uma qualquer actividade mercantil.
















































